  -É men­ti­ra! É men­ti­ra!... -ain­da alvi­tra al­guém. 

  -Calem-​se -or­de­na o José Maria. 

  Por ho­je já bas­ta de barul­hos. 

  A sua cal­ma e au­tori­dade voltavam a faz­er parte dele. No­ta­va-​o per­feita­mente. Ago­ra era um vence­dor glo­rioso e não um ven­ci­do. A lu­ta fo­ra grande não só con­tra o mon­stro, que tão bra­vo se ap­re­sen­tara, mas tam­bém com o quer­er du­ma trip­ulação toma­da de pâni­co. 

  Ain­da um ou dois home­ns falam…

  -O primeiro que tornar aqui a abrir a bo­ca, sem que para is­so se­ja chama­do, abro-​lhe a cabeça... 

  O silên­cio fez-​se to­tal. Pouco de­pois veio a or­dem: 

  -Va­mos pro­lon­gar com a Baleia e amar­rar. 

  O Nun'Ál­vares vai man­dan­do. 

  Man­so co­mo es­ta­va o mar, foi fá­cil a manobra, e em breve chegá­va­mos ao la­do daque­le boni­to ex­em­plar, cu­jo cor­po in­erte es­ta­va ago­ra à dis­posição dos seus as­sas­si­nos. O me­do fo­ra sub­sti­tuí­do pela ale­gria e glória de matar. Mas quan­to não teria si­do maior esse tri­un­fo, se lhe tivésse­mos pres­en­ci­ado as ag­onias da morte, rolan­do-​se em dores, num de­bater-​se de­ses­per­ado; ten­tan­do endi­re­itar-​se ain­da, mas, já de to­do exangue, o an­gus­tioso es­tremec­imen­to que assi­nala o fim, en­quan­to, tré­mu­la, a asel­ha se de­sco­la do cor­po apon­tan­do o céu, e o mar, à sua vol­ta, é um leito de sangue! 

  Ago­ra já não há peri­go: é o abrir de um bu­ra­co, a golpes certeiros de uma es­pel­ha, na cau­da ou na ven­ta; é pas­sar um es­tropo, lig­ar-​lhe o cabo de re­boque en­tregue pela gasoli­na, e pron­to! 

  Foi as­sim que se pro­cedeu. Amar­ra­do o cabo de re­boque, a gasoli­na começou a puxar ru­mo à nos­sa ter­ra. 

  A pouco e pouco, to­dos se vão aco­modan­do de meio bote para trás, co­mo é ha­bit­ual. Safam o pano, para com ele se abri­garem, de­pois de ve­stirem as roupas de agasal­ho, que ago­ra tan­to jeito davam... 

  Tam­bém, aos poucos, as várias sacas de co­mi­da vão sain­do da caixa, e to­dos se procu­ram con­for­tar, pela primeira vez naque­le dia. Mas era pre­ciso ter cuida­do e deixar co­mi­da para o dia seguinte, pois se­ria de to­do im­pos­sív­el chegar a ter­ra nas próx­imas 24 ou talvez 48 ho­ras. 

  Du­rante muito tem­po ain­da os vários episó­dios do dia foram relem­bra­dos, ora em el­ogios, ora em cen­suras. Quan­to ao nos­so ami­go carcereiro, teima­va em man­ter a sua promes­sa que não mais voltaria à Baleia. Co­mo dizia, «juras são juras» …De fac­to, as­sim foi. 

  En­tre­tan­to, to­dos já aconchega­dos o mel­hor pos­sív­el, uns de­baixo e out­ros en­ro­la­dos no pano, o silên­cio tornou-​se to­tal. Deit­ei-​me em cima da tilha da popa, feito nu­ma bo­la, que o es­paço não da­va para mais... O José Maria deixou-​se es­cor­re­gar de cima do leito e tam­bém ali se sen­tou en­costa­do à amu­ra­da, a cabeça apoia­da na bor­da, ol­han­do as es­tre­las... Quan­to tem­po as­sim terá fi­ca­do e em que pen­saria? Na mul­her e nas duas fil­hin­has? Nas di­fi­cul­dades que se lhe ap­re­sen­tavam na vi­da?! 

  Quan­do acordei, o cor­po to­do me doía e os queixos não par­avam de bater pe­lo frio que tin­ha. Com di­fi­cul­dade lev­an­tei a cabeça. O José Maria lá es­ta­va na mes­ma posição. Até os ol­hos pare­ci­am fixar a mes­ma es­trela... A man­hã es­ta­va a começar a dar os primeiros sinais, ven­do-​se, no nascente, uma au­ro­ra muito ténue. 

  Gemen­do, so­er­gui-​me um pouco e disse-​lhe: 

  -Vai dormir. Eu fi­co ago­ra de guar­da. 

  -Não quero dormir; já pas­sei pe­lo sono. Is­to vai muito bem, mas muito de­va­gar... va­mos ter Baleia para re­bo­car du­rante dias!... Dorme mais um bo­ca­do. Parece-​me que va­mos ter out­ro