 dia muito pux­ado. 

  Ain­da repli­co: 

  -Se é Baleia que sen­tiste, não pens­es nis­so. As lanças foram-​se to­das em­bo­ra!... (por vezes, no silên­cio da noite, po­dia ter ou­vi­do o ruí­do do bu­far). 

  Voltei-​me, pux­ei mais pano para cima de mim, ajeit­ei o cor­po o mel­hor pos­sív­el e, em breve, dormia de no­vo. 

  O Sol, aci­ma do hor­izonte, ba­tia-​nos já com os seus raios fortes, quan­do des­pertei. Vários mar­in­heiros tin­ham tam­bém acor­da­do, e meti­am al­gu­mas den­tadas na bo­ca, do pouco pão e al­gum con­du­to so­bra­do da véspera. 

  -Cuida­do: aca­ban­do-​se esse não há mais! E vocês ve­jam onde es­tá a ter­ra. 

  Ou­vin­do is­to, veio-​me lo­go a cu­riosi­dade de reparar se con­seguia avistá-​la, para o que me pus de pé em cima do ban­co, e, lá pela proa da gasoli­na fo­ra a vis­lum­brei... Pare­cia mais uma nu­vem que pro­pri­amente ter­ra, só que, para mar­in­heiros ex­pe­ri­entes, não havia con­fusão pos­sív­el: era o azul da ter­ra. Só os pi­cos mais al­tos se vi­am; o resto es­ta­va co­mi­do pe­lo mar. 

  -Quan­tas mil­has? -per­gun­ta um dos mar­in­heiros que, tam­bém de pé, em cima de um ban­co, ol­ha­va o hor­izonte, 

  -Con­seguimos ver ter­ra porque o tem­po es­tá muito claro, mas, por aqui­lo que aparece aci­ma do hor­izonte, de­ve­mos es­tar a umas 40 a 45 mil­has da pon­ta de Ro­sais! 

  -Quan­do é que cheg­amos a casa? -per­gun­ta out­ro. 

  A re­spos­ta foi da­da pe­lo José Maria: 

  -Quan­do Deus quis­er!... 

  O as­sun­to pare­cia ter fi­ca­do ar­ru­ma­do, mas ago­ra, de bor­do da gasoli­na, fazem-​nos sinais in­di­can­do que pre­cisam de falar connosco. 

  Vou para a proa e per­gun­to, por gestos, o que querem. 

  O Sabi­no vai bus­car uma la­ta de gasoli­na vazia e, de cima da casa, faz gestos em que percebe­mos não terem gasoli­na senão para aque­le dia. 

  -Eu já es­per­ava es­ta... Pe­lo an­da­men­to... O mo­tor tem vin­do de­va­gar para não gas­tar. Cal­culei is­so du­rante a noite -diz-​nos o José Maria. E con­tin­ua: 

  -Acor­da os out­ros que es­tão a dormir e va­mos pôr is­so tu­do em or­dem. 

  As­sim foi feito, ten­do o bote fi­ca­do to­do ar­ru­ma­do nas condições de­vi­das. Puxá­mos à frente, cor­tou-​se a lin­ha, por onde es­tá­va­mos amar­ra­dos à Baleia, o mais jun­to pos­sív­el ao es­tropo do arpão, ar­maram-​se os re­mos, e re­mou-​se até chegar jun­to da gasoli­na onde amar­rá­mos cur­to, fi­can­do à fala. 

  Era o que tín­hamos com­preen­di­do: a gasoli­na que havia a bor­do pouco mais daria do que até à meia-​noite, e a co­mi­da es­ta­va prati­ca­mente es­go­ta­da. 

  Ali tin­ham ti­do ocasião e tem­po para com­er, en­quan­to nós, amar­ra­dos à Baleia, nas cir­cun­stân­cias em que tín­hamos es­ta­do, nem dis­so nos lem­brá­mos. 

  Que podíamos faz­er? Não havia ven­to para faz­er de vela e ir a ter­ra pedir so­cor­ros. 

  O José Maria deve ter toma­do uma res­olução, pois disse ao Mafre­do, que con­tin­ua­va de mestre da gasoli­na: 

  -Quan­do chegares mais à ter­ra, puxa uma ban­deira no mas­tro. Pode ser que al­gum vi­gia te ve­ja... -e mu­dan­do de tom -mas não es­peres por na­da antes do aman­hecer de aman­hã. 

  Larga o cabo. 

  Vá, ra­pazes, armem os re­mos, e que Deus Nos­so Sen­hor nos acom­pan­he. 

  Três ho­ras decor­ri­das, já não víamos a gasoli­na mas S. Jorge con­tin­ua­va lá, muito longe, en­quan­to o Sol, à maneira que as ho­ras pas­savam, mais nos flagela­va os cor­pos, de onde aos poucos to­da a roupa foi de­spo­ja­da e ar­ru­ma­da na caixa. Só nos ficaram as cue­cas. 

  Er­am sete ho­ras quan­do tín­hamos larga­do da Baleia. Remá­va­mos há nove ho­ras con­sec­uti­vas, de­ven