do ter ain­da para per­cor­rer oito a dez mil­has até chegar à pon­ta de Ro­sais, e mais sete, para chegar às Ve­las. Co­mi­da não havia, e água só para mais dois goles a ca­da um. De­pois das dez ho­ras, não foi per­mi­ti­do mais que uma bochecha­da de ca­da vez, por es­paços mar­ca­dos pe­lo ofi­cial que tin­ha colo­ca­do o úl­ti­mo dos dois gar­rafões de água a seu la­do, e só uma vez, até àquela ho­ra, o tin­ha lev­ado à bo­ca. Ex­em­plo lou­váv­el, mere­ce­dor de to­da a con­sid­er­ação. Co­mo dizia, po­dia pas­sar mel­hor sem água do que os out­ros, vis­to o seu es­forço, ao es­par­rela, ser menor, mas, co­mo nos out­ros, ou talvez mais, o cír­cu­lo de es­puma bran­ca já quase lhe tapa­va os lábios por com­ple­to. 

  -Va­mos ver se con­seguimos chegar à baía Grande ain­da de dia, e um homem vai a ter­ra encher os gar­rafões de água na nascente. Nes­ta al­tura, ain­da não deve es­tar se­ca.

  Es­tas suas palavras não pas­savam de um con­for­to e es­tí­mu­lo, ten­tan­do re­an­imar forças que con­seguis­sem per­cor­rer aque­la dis­tân­cia o mais de­pres­sa pos­sív­el, em­bo­ra saben­do de an­temão que tal se­ria im­pos­sív­el antes do anoite­cer. O bote, de ho­ra a ho­ra, vin­ha a perder an­da­men­to, jul­go mes­mo que, na úl­ti­ma ho­ra, não teríamos per­cor­ri­do três mil­has. 

  Com a fal­ta de co­mi­da, mas prin­ci­pal­mente da água, o cansaço au­men­tara de tal for­ma que era uma tor­tu­ra vencê-​lo. Ur­gia chegar ao por­to das Ve­las a to­do o cus­to. Não serviria de na­da ten­tar de­sem­bar­car na cos­ta, porque teri­am de subir as es­carpadas rochas à procu­ra de água e co­mi­da. E onde ir bus­car forças para tal? Ain­da por cima já noite fecha­da? 

  Às seis ho­ras da tarde, pou­cas mil­has mais havi­am si­do per­cor­ri­das. 

  Ol­han­do a cos­ta, ain­da mal se via o mar que­brar nas pe­dras. A úl­ti­ma água tin­ha si­do dis­tribuí­da, en­quan­to as forças ca­da vez mais fu­giam. 

  Não era que ess­es home­ns não es­tivessem ha­bit­ua­dos a duros es­forços. Quan­tas vezes tin­ham re­ma­do dias in­teiros em cima das baleias, e, já noite fecha­da, amar­rarem a elas e re­bo­carem-​nas para ter­ra, sem­pre à força de re­mos. Quan­tas vezes tam­bém de­baixo dum sol es­cal­dante e à mín­gua de água e de pão, mas, meu Deus, a re­sistên­cia do homem tem lim­ites, e eu nun­ca co­mo naque­le dia tão próx­imo de­les es­tive! 

  Ho­je, quem acei­ta semel­hantes situ­ações?! Até a mim me cus­ta acred­itar, ao de­screvê-​las, que há quarenta anos fos­se pos­sív­el haver gente que a tu­do is­to se su­jeita­va sem re­voltas nem ódios. E eu ali es­ta­va a aux­il­iá-​los, sem qual­quer rec­om­pen­sa, sofren­do das mes­mas pri­vações, lev­ado ape­nas pe­lo praz­er da aven­tu­ra... E que aven­tu­ra! Mas o coração sen­tia-​se rec­om­pen­sa­do na es­ti­ma e na ad­mi­ração com que me ol­havam to­dos aque­les com­pan­heiros em aflição. Eu era igual a eles por al­truís­mo, por amor. 

  O Sol, cain­do so­bre o poente, in­di­ca­va a aprox­imação da noite. Para lá víamos o José Maria ol­har. Sem­pre sen­ta­do em cima do la­gai­ete, com os pés apoia­dos no es­tri­bo de es­ti­bor­do, se­gu­ra­va o es­par­rela na mão es­quer­da a fim de man­ter o bote no ru­mo. Para lá tam­bém di­ri­gi o ol­har, mas já o José Maria se volta­va, pun­ha-​se de pé em cima dos es­tri­bos, e dizia: 

  -Lev­em re­mos. Va­mos faz­er de vela. 

  Sim, ele tin­ha razão: os primeiros pin­gos de água que caíam in­di­cavam a aprox­imação de um chu­veiro; lo­go atrás deste se via o mar ene­gre­ci­do pe­lo ven­to fres­co vin­do so­pran­do de oeste. 

  A moral tin­ha re­gres­sa­do à cara daque­les home­ns. Em to­dos