de e noite pe­lo seu fiel mari­do... Es­ta tam­bém a sua úl­ti­ma ar­ri­ada. Em pâni­co, prom­eteu a Deus que «se voltasse a ver a mul­her e fil­hos não mais tornar­ia à Baleia»... e cumpriu. 

  Na gasoli­na, o mestre era o Manuel Félix, bom in­di­ví­duo, em­bo­ra pouco con­hece­dor, sendo tam­bém muito medroso, mas sem­pre pron­to a cumprir qual­quer or­dem que lhe fos­se da­da. 

  O mo­torista, o Sabi­no, cu­ja profis­são era fer­reiro e for­jador, sendo co­mo for­jador um ha­bili­doso ex­cep­cional. Tin­ha a vaidade de que nun­ca Baleia al­gu­ma tran­ca­da com arpões feitos por ele tin­ha si­do per­di­da por de­feito do arpão. Es­ta ar­ma de fab­ri­co arte­sanal, saí­da das mãos deste artista, era, de fac­to, uma obra de per­fei­ta ex­ecução. Aper­feiçoa­da por ele próprio, nela já apare­ci­am lin­has aerod­inâmi­cas, par­tic­ular­mente na maneira co­mo lança­va a bar­ba e a farpa do arpão... Vi e ajudei a faz­er muitos destes arpões. Ele fazia-​os para to­das as il­has. Uma out­ra pre­sunção dele era o que con­seguia faz­er dan­do um úni­co calor ao fer­ro. Es­pan­toso! «Caldea­va» o al­va­do ao cane­lo, e num só calor deix­ava o tra­bal­ho feito, pron­to a que o cabo de madeira en­caix­as­se no al­va­do do arpão. «Caldear» o fer­ro um com o out­ro não pas­sa­va de uma sol­dadu­ra, só que, quan­do bem fei­ta, fi­ca­va co­mo se de um úni­co fer­ro se tratasse. A im­portân­cia dis­to é que o fer­ro que lev­asse vários calores per­dia qual­idade, e ali, jus­ta­mente na lig­ação do cane­lo ao al­va­do, onde vai amar­rar o es­tropo do arpão que por sua vez vai lig­ar à lin­ha, é um dos pon­tos que faz mais força. 

  Con­heci sem­pre este homem a ir à Baleia. Fazia-​o por ví­cio, porque tra­bal­ho nun­ca lhe fal­ta­va. Se sabia faz­er um arpão, os alviões e enx­adas feitas por ele não er­am in­fe­ri­ores. Quan­tos es­per­aram um ano e mais para con­seguirem es­sas peças de fer­ra­men­ta, feitas e tem­per­adas co­mo só ele sabia! 

  Co­mo mo­torista, sat­is­fazia; co­mo baleeiro, era muito bom, Além de saber ati­rar uma lança da proa da gasoli­na, era uma pes­soa dota­da de uma vista mag­ní­fi­ca, go­stan­do de a us­ar. Pas­sa­va ho­ras de pé em cima da casa a vi­giar, e, aí, por vezes, os mo­tores sofri­am pela fal­ta de as­sistên­cia... 

  O mar­in­heiro des­ta gasoli­na era tam­bém um ra­paz, por sinal fil­ho do del­ega­do marí­ti­mo, que, em­bo­ra go­stan­do muito da pesca, mais ali an­da­va para praticar co­mo mo­torista do que por out­ra razão. 

  Es­tá­va­mos a chegar, e o nos­so ofi­cial man­dou de­samar­rar o cabo de re­boque, e pas­sar a pon­ta em vol­ta do ban­co um, fi­can­do o es­cote se­guro pe­lo homem do baó, pron­to a largar à primeira or­dem. 

  Ex­ecu­ta­da a manobra, já tín­hamos Baleias não só pela frente, mas tam­bém de um e do out­ro la­do. Até pela popa elas se vi­am! Se­ria prati­ca­mente im­pos­sív­el sair dali sem tran­car­mos, O Mafre­do, na proa, de arpão na mão, procu­ra­va man­dar para a maior Baleia, en­quan­to, da gasoli­na, o Sabi­no, ain­da de pé, em cima da casa, e da popa do nos­so bote o José Maria, gri­tavam que es­perasse. De­cer­to, no meio de tan­ta Baleia, de­via haver Baleias grandes. As­sim, di­ri­gi-​me ao ofi­cial e disse-​lhe: 

  -José Maria. Tem que haver, no meio destas, Baleias grandes! Não deix­es tran­car. 

  -Tam­bém es­tou con­ven­ci­do dis­so, mas não ve­jo nen­hu­ma! Vê se con­segues de­sco­brir al­gu­ma. 

  Em­bo­ra de re­boque, tin­ham si­do colo­cadas as for­que­tas no seu lu­gar, e os re­mos pron­tos a cor­rer fo­ra. Foi de­pois de me cer­ti­ficar que o meu es­ta­va bem cruza­do e não cairia ao mar que saltei para cima do meu ban­co, o ban­co três, onde re­ma