José Maria as chegou a ver, ou se se fiou na min­ha palavra. A or­dem foi por ele da­da: 

  -Larga o cabo de re­boque. Armem os re­mos. 

  E já com o es­par­rela fazia voltar o bote na di­recção in­di­ca­da. 

  Eu tin­ha-​me sen­ta­do no meu lu­gar, pux­ado o re­mo fo­ra à or­dem de ar­mar re­mos, e já cur­va­do so­bre o pun­ho do mes­mo fazia-​o ver­gar, co­mo os meus out­ros com­pan­heiros, para que rap­ida­mente o bote adquirisse a ve­loci­dade de­se­ja­da. 

  To­dos os ofi­ci­ais que con­heci as­sum­iam uma at­itude típi­ca quan­do se aprox­imavam de uma Baleia, e o José Maria não fu­gia à re­gra. O boné que sem­pre us­ava era pux­ado para cima da tes­ta, deixan­do a parte de trás da nu­ca a apare­cer. No seu ca­so, fi­ca­va-​lhe à vista uma parte da care­ca... A pala do boné tapa­va-​lhe os ol­hos quase por com­ple­to. Após uma cus­pi­dela bor­da fo­ra, amare­la­da de­vi­do à per­manên­cia da mas­ca ao can­to da bo­ca, e após ter aproa­do o bote ao ru­mo, começa­va uma «lengalen­ga» que tam­bém lhe era ha­bit­ual nes­tas situ­ações. Este palavri­ado em voz abafa­da ia sem­pre baixan­do de tom à maneira que o bote se aprox­ima­va da Baleia. Os in­ter­va­los en­tre as suas or­dens, lamúrias ou protestos, iam tam­bém dimin­uin­do, tor­nan­do-​se in­ter­mi­tentes. Por vezes, pare­cia falar con­si­go próprio. 

  Mas eis que o ou­vi­mos: 

  -Já as vi! Ali es­tão! 

  Vá, força ness­es re­mos!... este bote não an­da na­da! 

  A sua cabeça não tin­ha um movi­men­to: acom­pan­ha­va o cor­po; e os ol­hos, ess­es de­vi­am es­tar fixos num pon­to e dali não saíam. 

  -An­da Mafre­do. Puxa por esse re­mo. 

  Ah! Baleia fil­ha da pu­ta... sai daí para fo­ra. 

  Uma Baleia tin­ha-​se atrav­es­sa­do na proa. Sen­ti­mos per­feita­mente o bote varar por cima dela. Parou-​se de re­mar. O bote que­brou o an­da­men­to e os­cilou a um e out­ro la­do. Tín­hamos vara­do em cima do lom­bo dela... 

  Fe­liz­mente na­da mais hou­ve que um pe­queno sus­to para al­guns. A Baleia, ao sen­tir o bote, afun­dou-​se, deixan­do-​nos de no­vo o cam­in­ho livre. 

  -Força, ra­pazes... es­ta­mos safos des­ta! Va­mos, força... 

  Ei?! Mafre­do, elas es­tão es­ten­di­das por cima da água co­mo paus!... 

  Aguen­ta duro, ra­pazes...vai ser des­ta vez. 

  Ago­ra é uma out­ra Baleia que vem à su­per­fí­cie do la­do em que es­tou a re­mar. O meu com­pan­heiro da frente, que re­ma no cin­co, por não se ter aperce­bido ou por out­ra qual­quer razão, faz o re­mo deslizar por cima do cor­po da Baleia. Fal­tan­do-​lhe o en­con­tro da água na pá, vi­ra de costas por cima de mim, re­sul­tan­do daí duas re­madas fal­hadas. 

  En­quan­to is­so, o ofi­cial con­tin­ua­va: 

  -Lev­an­ta-​te ma­lan­dro! Vás faz­er com que per­camos a Baleia! Se te que­rias deitar, tivess­es fi­ca­do em casa. 

  Va­mos... Va­mos que vai ser ago­ra. 

  Elas es­tão ali só à nos­sa es­pera! 

  Cuida­do! Atenção! Va­mos en­cal­har out­ra vez em cima de out­ro es­tu­por!...não ten­ham me­do. 

  O bote só roçou ao de leve por cima dela e con­tin­uou na sua mar­cha. 

  -Grandes Baleias!... 

  Já não pos­so ir pe­lo rabo, vou mes­mo ao atrav­es­sar, Mafre­do... a maior é a da pon­ta de lá. A do meio tam­bém é ur­na grande Baleia! A mais pe­que­na é a primeira. 

  Força ra­pazes! É só mais meia dúzia de re­madas! Va­mos, força. 

  Pára de re­mar!... 

  Dá-​lhe, Mafre­do!... A maior é a do meio, mas tran­ca es­sa! 

  -Va­mos par­tir!... va­mos par­tir se tran­co! 

  Es­tá­va­mos para­dos, de re­mos apun­hados. O bote ca­da vez fi­ca­va mais em seco em cima das Baleias. En­con­trá­va­mo-​nos atrav­es­sa­dos em cima de três Baleias que d