e­vi­am es­tar na brin­cadeira connosco. Out­ra coisa não se po­dia de­preen­der, vis­to que ca­da vez se lev­an­tavam mais e o bote já mal to­ca­va com a quil­ha no mar. Elas sen­ti­am o bote e con­tin­uavam. Não havia dúvi­da que se trata­va de uma brin­cadeira... Ca­so con­trário, po­di­am-​nos des­faz­er em poucos se­gun­dos. 

  Pas­sa­dos que foram aque­les primeiros mo­men­tos, du­rante os quais ain­da foram ou­vi­dos al­guns gri­tos de de­ses­pero, a voz do José Maria fez-​se ou­vir, ain­da nós ador­na­dos so­bre es­ti­bor­do: 

  -Tran­ca, Mafre­do! Tran­ca! 

  -Es­ta aqui! A do meio que é a maior! -dizia tam­bém eu para o Mafre­do. 

  Este, com o arpão atrav­es­sa­do na proa, se­gu­ra­va-​o com uma mão, en­quan­to com a out­ra se se­gu­ra­va ã bor­da; só dizia: 

  -Es­ta­mos par­tidos, co­mo é que querem tran­car!? Va­mos mor­rer to­dos aqui! 

  -Ma­lan­dro! Ma­lan­dro!...vem tran­car aque­la Baleia! 

  -Não tran­co! Se não es­ta­mos par­tidos, va­mos par­tir! - dizia aque­le po­bre homem, que em poucos mo­men­tos se trans­for­mara num far­rapo hu­mano, apoder­ado pe­lo me­do que os efeitos do ál­cool não deix­avam dom­inar. 

  De fac­to, tin­ham-​se sen­ti­do madeiras a es­ta­lar e a ranger por várias vezes, mas is­so era nat­ural. O bote es­ta­va car­rega­do com to­da a com­pan­ha, e tin­ha es­ta­do quase to­do fo­ra da água lev­an­ta­do por dois pon­tos. Talvez tivesse mes­mo al­gu­mas tábuas e cav­er­nas par­tidas, o que não que­ria diz­er «es­tar ar­rom­ba­do». 

  -De­pres­sa!... Elas vão-​se em­bo­ra! -dizia o José Maria, ven­do que o bote toma­va a sua posição nor­mal pe­lo fac­to de as Baleias estarem a deixar-​se afun­dar. 

  Voltei a in­si­stir: 

  -Vão-​se em­bo­ra e fi­camos sem Baleia! 

  De pé, em cima da tilha da popa, o José Maria baixa-​se, re­ti­ra a cana do leme de­baixo do leito, em­pun­ha-​a, e, em voz rou­ca, hor­ren­da­mente ameaçado­ra, diz: 

  -Ou tran­cas, ou eu ma­to-​te. 

  Para quem ou­visse es­ta or­dem, não mere­cia qual­quer dúvi­da. O pé di­re­ito es­ta­va em cima do ban­co sete, pron­to a saltar, qual ti­gre em cima da pre­sa. A cana do leme de metro e meio de com­pri­do, fei­ta de madeira de gi­esteira, mantin­ha-​se no ar para des­ferir o golpe ameaçador, se a or­dem não fos­se cumpri­da. 

  Di­ta co­mo fo­ra a or­dem e man­ti­da aque­la at­itude, saben­do-​se ain­da dos in­úmeros an­tecedentes de onde par­ti­am aque­las ameaças, o Mafre­do pe­gou no arpão, ol­han­do em vol­ta... 

  -A do meio!... a do meio!...-se fez ou­vir a mes­ma voz. 

  E aque­le homem, que deix­ava trans­pare­cer na fi­siono­mia to­do o hor­ror que ia den­tro em si, saltou para cima do ban­co um, lo­go se apoian­do no mar­in­heiro do baó, sen­ta­do no ban­co dois, e saltou de­pois por cima do re­mo deste para o meu ban­co, apoian­do-​se tam­bém no meu om­bro. 

  Eu es­ta­va de­bruça­do na bor­da, ol­han­do o mar para baixo, ven­do as Baleias, não só as que ali es­tavam lo­go de­baixo de nós, cu­ja cor, de­vi­do à pou­ca pro­fun­di­dade, se ap­re­sen­ta­va quase no tom nor­mal do pre­to-​ac­inzen­ta­do, mas ven­do tam­bém as out­ras, por baixo destas, com a sua cor es­bran­quiça­da, de­vi­do à pro­fun­di­dade em que se en­con­travam ser maior: dois ou três met­ros. 

  Ao sen­tir a mão em cima do om­bro, ol­hei aque­le homem ami­go, e, ao en­con­trar os seus ol­hos, vi-​os cheios de ter­ror. No en­tan­to, mostra­va a de­ter­mi­nação de cumprir o seu de­ver à or­dem da­da, mes­mo que tivesse de ser pela úl­ti­ma vez... 

  -A Baleia es­tá aqui. Vá, tran­ca! 

  Sem­pre am­para­do a mim com uma das mãos, en­quan­to a out­ra se­gu­ra­va o cabo do arpão que tra