zia às costas, saltou para a min­ha frente, fi­can­do en­tre a sel­ha de lin­ha e a bor­da. Ol­hou a Baleia que ali con­tin­ua­va de­spre­ocu­pada­mente à es­pera, não doutra coisa que não fos­se o arpão. 

  Mas ain­da disse: 

  -Is­to é um dis­parate! Va­mos mor­rer aqui to­dos! 

  -Tran­cas, ou é que mor­res! -in­siste o José Maria. 

  Eu es­ta­va ago­ra de pé em cima do ban­co ol­han­do aque­les mon­stros. Por baixo de mim um grande, talvez o maior, mostra­va a sua im­po­nente cabeça, en­quan­to o rabo es­ta­va pe­lo out­ro bor­do fo­ra. O lom­bo, começan­do lo­go atrás da cabeça, es­ta­va pron­to a re­ce­ber o arpão. 

  O Mafre­do, com o joel­ho da per­na di­re­ita en­costa­do à bor­da, e com o pé da out­ra per­na en­coiça­do na sel­ha, tin­ha o arpão ao al­to, fo­ra da bor­da, se­guro com as duas mãos. Havia ain­da hes­itação... 

  No­va­mente sente-​se o bote es­treme­cer. Ol­hei bor­da fo­ra e vi a Baleia que se mantin­ha ali, em­bo­ra tivesse vin­do um pouco mais à su­per­fí­cie. De­cer­to es­ta­va de no­vo na brin­cadeira com o bote... Ar­queia-​se, mostra um pouco da cau­da e dei­ta a cabeça fo­ra da água, mostran­do a ven­ta por onde ati­ra um bu­fo, lento e fra­co, pois o seu es­forço, prati­ca­mente nu­lo, mais não re­que­ria. 

  -Tran­cas, ou dá-​me o arpão que eu tran­co. 

  -Eu tran­co -ou­vi-​o diz­er muito baixo. Os seus braços el­evaram o arpão o mais pos­sív­el e cravaram-​no no dor­so do an­imal, à queima-​roupa. Ain­da pi­or que tran­car à mule­ta, pois este tran­car ex­ige em­purrar o arpão com o om­bro. Ali, fo­ra co­mo se es­tivesse a es­petar uma vara na ter­ra... 

  O Mafre­do deixou-​se cair, fi­can­do sen­ta­do em cima da sel­ha. Eu re­cuei para o cen­tro do ban­co. O cabo do arpão es­ta­va na nos­sa frente di­re­ito ao ar, sem um movi­men­to. Não havia dúvi­das que a Baleia es­ta­va tran­ca­da: via-​se o mar, naque­le sí­tio, lev­emente tolda­do do sangue que saía do bu­ra­co aber­to pe­lo arpão. 

  Não se ou­via o mais pe­queno ruí­do nos el­emen­tos da com­pan­ha. Um ob­ser­vador aten­to con­seguiria es­cu­tar o bater de­scom­pas­sa­do daque­les corações con­scientes do peri­go que tin­ham por baixo dos pés... 

  Pas­saram-​se 5, 10, 15 talvez 30 ou mais se­gun­dos e tu­do se mantin­ha. Para pro­va es­ta­va o arpão na mes­ma posição em que o Mafre­do o tin­ha deix­ado! Em­bo­ra por muito es­tran­ho que fos­se, a Baleia pare­cia não o ter sen­ti­do. Só as­sim se ex­pli­ca es­ta sua at­itude de in­difer­ença. 

  O José Maria de­via achar tam­bém tu­do is­to muito es­tran­ho e bem o deix­ava trans­pare­cer. Pela primeira vez o vi sem boné na cabeça, sen­ta­do em cima do la­gai­ete com as mãos sus­ten­do o re­mo do es­par­rela. Mostra­va, na sua at­itude e fi­siono­mia, para quem bem o con­hecia, que os ner­vos se tin­ham apoder­ado dessa ha­bit­ual cal­ma, em­bo­ra mo­men­tanea­mente. Se­ria as­sim, porque a sua voz lo­go se fez ou­vir: 

  -Cia para ré. De­pres­sa. 

  Os re­mos cor­reram fo­ra e a manobra ia ser ex­ecu­ta­da. 

  Quan­do o bote começa­va a an­dar para trás, o re­mo do meu com­pan­heiro da frente ia em­peçar no cabo do arpão ain­da na mes­ma posição, lo­go atrás da min­ha forquil­ha. Havia a tomar uma at­itude e es­sa não se fez es­per­ar: pux­ei o re­mo den­tro, de­bru­cei-​me fo­ra da bor­da, peguei no cabo do arpão, e cam­beio-​o no sen­ti­do do pro­longa­men­to do bote. O arpão, que tin­ha en­tra­do até ao al­va­do, co­mo ago­ra via, cam­bou na junção deste com o cane­lo. 

  O meu re­mo de no­vo foi fo­ra, e o bote, lenta­mente, por ir roçar em cima de uma ou mais Baleias, começou a sua mar­cha para ré. 

  O Mafre­do con­tin­ua­va sen