­ta­do na sel­ha, no­tan­do-​se-​lhe clara­mente o seu es­ta­do de aba­ti­men­to. 

  Em­bo­ra com di­fi­cul­dade, o bote vai sain­do daque­la posição críti­ca, se bem que as Baleias ain­da es­tivessem em­baraçan­do o re­mar. Tin­ha-​se de me­ter os re­mos na água com cuida­do para não bater em nen­hu­ma. Se is­so acon­te­cesse, po­dia haver peri­go de ela ri­postar ao sen­tir-​se to­ca­da, e to­das as out­ras seguirem o seu ex­em­plo, o que, na situ­ação em que nos en­con­trá­va­mos, re­duziria as pos­si­bil­idades de dali sair­mos in­cólumes. 

  Tu­do pas­sou pe­lo mel­hor. O bote en­con­tra­va-​se fo­ra da Baleia tran­ca­da, aque­la que, para já, ofer­ecia mais peri­go. Ela con­tin­ua­va por cima, atrav­es­sa­da a poucos met­ros de nós -na nos­sa proa. O arpão que a pren­dia a nós era per­feita­mente visív­el em cima do seu lom­bo. 

  -Ve­jam se es­sa lin­ha es­tá pronta a cor­rer! 

  Sai daí para fo­ra, Mafre­do! Vai para o teu lu­gar e põe tu­do pron­to para matar. 

  -Matar?! 

  -Sim, matar -re­sponde ain­da o José Maria -ou queres levar a Baleia vi­va? 

  Eu es­ta­va de no­vo em pé com uma per­na para ca­da la­do do meu ban­co e ol­ha­va em re­dor. Era es­pan­toso o que con­tin­ua­va a ver: pare­cia haver ain­da mais Baleias do que quan­do trancá­mos... Da­va a im­pressão que se po­dia an­dar por cima do mar saltan­do de Baleia em Baleia... 

  Via, por fo­ra de nós, a gasoli­na «Maria Manuela» e o out­ro bote que pare­cia tam­bém es­tar tran­ca­do. Não se con­seguia saber qual das Baleias era. Só por se ver to­do o pes­soal de pé den­tro do bote e a gasoli­na muito próx­ima é que a is­so nos lev­ava a cr­er. No ca­so de as­sim ser, de­via-​se es­tar a pas­sar o mes­mo que connosco: a Baleia es­ta­va por cima, jun­ta­mente com as out­ras. 

  En­quan­to se man­tivesse esse es­ta­do de coisas, com aque­las Baleias to­das por cima, era im­pos­sív­el começar a matar. Se­ria, co­mo já disse, cor­rer um grande peri­go, o que não era, de maneira nen­hu­ma, acon­sel­háv­el. 

  A nos­sa Baleia tin­ha-​se sep­ara­do mais das out­ras, ou antes, as out­ras sep­ar­avam-​se dela, fazen­do um cír­cu­lo à sua vol­ta, 

  Não de­mor­ou muito. 

  A Baleia ro­la-​se a um la­do... de­pois ao out­ro... bate duas vezes com a cau­da no mar. For­ma um ar­co, es­tende-​se, e dá um bu­fo... para no­va­mente faz­er ar­co, mas des­ta vez não havia dúvi­das: ia vi­rar o rabo. A sua cau­da saiu da água, elevou-​se no ar e, lenta­mente, sum­iu-​se nas águas do oceano. 

  A lin­ha ia começar a cor­rer. Por tal veio a chama­da de atenção: 

  -Atenção à lin­ha! 

  E é en­tão que ten­ho a fe­li­ci­dade de as­si­stir a mais um fenó­meno!.. To­das as Baleias es­tão a vi­rar o rabo ao mes­mo tem­po, co­mo se lh­es fos­se da­da uma or­dem. Não levaram mais de 15 a 20 se­gun­dos para to­das o faz­erem. Por um mo­men­to, o mar, à nos­sa vol­ta, tornou-​se es­curo por aque­les mil­hares de cau­das apon­tadas ao céu. 

  Uma das Baleias tran­cadas deu a is­to origem. A princí­pio, julguei que fos­se a nos­sa. Mas, mais tarde, um dos cabeças do out­ro bote disse-​me que aqui­lo havia acon­te­ci­do porque a Baleia de­les por três vezes avançara para o bote, ten­do si­do obri­ga­dos a dar-​lhe uma lança­da. 

  Os úl­ti­mos re­doiços das Baleias afun­dadas de­sa­pare­ce­ram por com­ple­to e o mar voltou a ser mar. 

  A lin­ha começara a cor­rer rap­ida­mente, e meia sel­ha tin­ha saí­do bor­da fo­ra. Mais uma vol­ta foi pas­sa­da ao la­gai­ete. Com três voltas, dali saía uma col­una de fu­mo de­vi­do à fricção, es­cal­da­va co­mo fo­go. 

  -Água na lin­ha. 

  Um dos dois baldes que fazi­am parte da pala­men­ta foi a fo­ra da