Title: Primeiro Corso (1946)
Author: Vitorino Nemésio
CreationDate: Fri Jul 31 16:11:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 25 14:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Primeiro Cor­so (1946)

  Vi­tori­no Nemé­sio

  A pub­li­cação de Primeiro Cor­so, ex­traí­do do livro Corsário das Il­has, foi gen­til­mente au­tor­iza­da pe­los herdeiros de Vi­tori­no Nemé­sio.

  © 1996, Herdeiros de Vi­tori­no Nemé­sio e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-51-0

  Lis­boa, Out­ubro de 1996

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  PRIMEIRO COR­SO

  I. «Iso­la­men­to»: Solidão de Il­ha

  Tovim, 24 de Jul­ho de 1946

  Uma cabrin­ha de bar­ro (es­creve Ma­teus Queima­do), um paliteiro de Barce­los que o aca­so me pôs, de pe­sa-​pa­péis, na pil­ha de pa­pel ex­tra-​strong ao la­do da máquina de es­cr­ev­er, parece diz­er-​me do al­to da sua pêra pre­ta e do as­so­bio de bar­ro: 

  -En­tão, vais-​nos deixar? Que vais tu lá faz­er? 

  «Lá» -são as il­has. "Cá" -é o país da cabra de Barce­los: «o Con­ti­nente», co­mo diz to­do o il­héu, fazen­do ressoar neste nome aqui­lo que ig­no­ra e que não é ca­paz de tirar aos seus hor­izontes movediços, cheios de nu­vens es­táti­cas, de ve­las ex­ces­si­vas, de al­gum anti­go cav­er­name cinzen­to de de­stroy­er pas­san­do, e do jo­go diário do Sol que nasce para mor­rer. 

  Claro que o boneco de bar­ro não me diz na­da dis­to. É um es­túpi­do e ameno bibelot que aqui ten­ho. Eu é que atiro para cima das coisas cir­cun­dantes a co­bar­dia de par­tir para as Il­has em vi­agem sen­ti­men­tal. e faço falar as pe­dras e as cabras de bar­ro no es­ti­lo do vel­ho do Reste­lo.

  Fe­cho os ol­hos e, nas teclas da máquina, encalo­rado, an­te­cipo-​me. O próprio dac­tilo­gra­far, um tu­do-​na­da ex­ci­ta­do pela min­ha primeira in­spi­ração de lon­go cur­so, imi­ta a pul­sação do pa­que­te largan­do. Mais um dia, umas ho­ras e fi­cará para trás o Reste­lo da prudên­cia com a sua bela torre bran­ca e a cur­va do rio das Aven­turas (co­mo se diz: «rio das Ama­zonas»). Talvez de aqui par­tisse o primeiro Queima­do para as Il­has... Talvez eu es­te­ja repetindo, desmemo­ri­ado por duas séries de dez anos de ausên­cia, a ex­per­iên­cia vir­ginal de meu tetravô Queima­do: colono, de­por­ta­do ou em­igrante de meio cam­in­ho. 

  Mas não. Nem esse meu longín­quo e hipotéti­co pro­gen­itor se chamaria Queima­do, nem o meu de­spaisa­men­to das il­has dos Açores é taman­ho que eu não sai­ba de an­temão tu­do o que lá vou ver. Fe­cho os ol­hos de no­vo e to­co nas coisas to­das. Uma por uma lev­an­tam-​se as il­has no ar­co do hor­izonte co­mo navios à ca­pa, dis­farça­dos uns dos out­ros pela corti­na de mor­maço. 

  Aqui, San­ta Maria, na sua solidão com­pacta, ho­je que­bra­da pela colos­sal platafor­ma de um aeró­dro­mo. Nas il­has de Baixo con­hecíamo-​la ape­nas pe­los seus potes de bar­ro, pe­los grandes e bo­ju­dos «tal­hões» onde o In­ver­no il­héu ver­tia, nas es­cor­ra lhas dos beirais, as reser­vas de água de Verão. Dali se im­por­ta­va, em bar­cos de bo­ca aber­ta, o mag­ma de bar­ro que ia re­forçar em qual­idade a olar­ia rudi­men­tar dos out­ros por­tos islen­hos, so­bre­tu­do os «tel­hais» que fab­ri­cavam o ti­jo­lo de forno e a tel­ha-​vã. 

  Ali, São Miguel, com as suas lom­bas par­das e as suas povoações castiças, os seus lat­ifún­dios e os seus par­ques. Diziam os madru­gadores que São Miguel se avista da il­ha Ter­ceira em dias límpi­dos. Um ne­gro a avis­tou das al­turas de San­ta Maria (se Fru­tu­oso não mente), lá pelas bru­mas da memória e do de­sco­bri­men­to... O nome dele, porém, não figu­ra en­tre os Vel­hos, os Zarcos