pos­to... Já não chego lá aci­ma ao deck a tem­po de ver a Madeira ajou­ja­da ao hor­izonte co­mo uma promes­sa que se faz pouco a pouco e pouco a pouco se cumpre. Mas a pon­ta de São Lourenço e a aldeia do Caniço me bas­tam para encher a chega­da. Era naque­la ba­ci­az­in­ha ín­ti­ma, recor­ta­da de fra­gas e falésias, sem ramo verde e quase sem so­pro hu­mano, que me apete­cia ficar para sem­pre. Pescador, não, que é muito tra­bal­hoso. Ca­los, só con­heci o de es­crivão -e chegou.. . Faroleiro, não era mau. An­dar de lanter­na de cores na mão e limpar os cristais das lentes ro­ta­ti­vas, para garan­tir a ni­tidez e a força do fo­co noc­turno que vara as águas e faz diz­er aos pares na amu­ra­da dos pa­que­tes (porque eu que­ria que o meu farol en­can­de­asse al­guns bei­jos): 

  -Ol­ha... vês? Aque­la luz, ali, é a pon­ta de São Lourenço. 

  Mas eu não presto para na­da! Nun­ca hei-​de ser na­da neste mun­do! (Es­creve Ma­teus Queima­do.) 

  A cos­ta da Madeira é uma mar­avil­ha. Não há pro­pri­amente aldeias, a não ser um ou out­ro aglom­er­ado mais den­so que se an­in­ha jun­to ao mar. O casario es­pal­ha-​se pelas en­costas da il­ha corno na cor­tiça de um presé­pio, a que o verde das cul­turas e o al­ma­gre das ter­ras peladas dão col­ori­do e rele­vo. 

  Aque­la povoação re­cata­da, ata­la­ia merid­iana, é Machico; e lem­bramo-​nos lo­go do casal fe­liz que a len­da an­in­hou naque­la brecha de rocha, novos Tristão e Iseu da Flo­res­ta e do Fil­tro... 

  De­ci­di­da­mente! Tu­do con­vi­da aqui à solidão de amor. É ur­na ilusão de quem costeia is­to – este jardim verde, de ca­banas bran­cas, de­pen­dura­do no mar? Que im­por­ta! En­quan­to a abor­dagem du­ra, va­mos viven­do destes fu­mos... con­sumin­do a nos­sa porção côn­grua de son­ho e de utopia, po­et­izan­do gra­tuita­mente as costas da Madeira. Da vel­ha es­pes­sura flo­re­stal que deu o nome à il­ha já quase na­da res­ta. Onde chega o homem com os seus dentes e un­has chega lo­go a macha­da, o fo­go, o alvião. Es­tas en­costas ve­sti­ram-​se de cana-​doce e de bata­ta. Os lenhos foram pre­cisos para os chave­cos dos pescadores, as trav­es da casa, as al­fa­ias da lavra do pão. 

  Mas o madeirense, se des­bas­tou as matas da col­oniza­ção, apren­deu a ajeitar a co­pa das fruteiras e a cor­tar o ca­be­lo à cepa de verdel­ho e de cerceal. Já não va­mos en­con­trar no mer­ca­do do Fun­chal as cataratas de uva, de maracu­já, de anona, de pêra e de pa­pa­ia, que fazi­am o en­can­to do vi­ajante de há dez anos. Uma vereação em­preende­do­ra con­stru­iu um mer­ca­do mon­umen­tal e higiéni­co, cheio de sábias di­visões, de an­dares racionais, de es­cadas com di­re­ito e es­quer­do. Foi um grande pro­gres­so. Mas é pe­na que se não ten­ha ar­ran­ja­do um out­ro dis­pos­iti­vo às fru­tas, man­ten­do a im­pressão semitrop­ical que davam antiga­mente os ces­tos plan­tur­osos, as cha­padas de ca­chos ain­da com enx­am­es agar­ra­dos ao mel dos ba­gos de oiro e a no­ta estri­dente das rés­tias dos pi­men­tos, dos araçás, dos abrun­hos, por cima dos quais gral­havam as araras e se es­penu­javam os periq­ui­tos.

  E lem­bra-​me a delí­cia, a beat­itude com que Raul Brandão, meu com­pan­heiro de vi­agem em Jul­ho de 1924, fez o Zarco dessa Madeira da fru­ta de gi­go, ho­je meti­da na or­dem. As cader­ne­tas de pa­pel quadric­ula­do que ele encheu com aqui­lo! 

  Há es­critores que fazem com os bi­cos da pe­na o que os pin­tores con­seguem com pê­lo de pin­cel e es­pá­tu­la. Raul Brandão era dess­es. Lev­ava uma ho­ra, e mais, di­ante de pais­agens, a no­tar cores e re­flex­os, tons e ma­tizes de ma­tizes... As­sim des­cansa­va dos seus so­lilóquios de po­eta e de filó­so­fo do es­pan­to e 