do son­ho. (Mais uma cruz de pau na história dos vi­ajantes e pere­gri­nos literários da Madeira: Raul Brandão…1924, Il­has De­scon­heci­das.) 

  Deixo a amu­ra­da de es­ti­bor­do e o jovem madeirense que amavel­mente se pres­ta a pi­lotar-​me nos aci­dentes da sua il­ha. Até à pon­ta do Gara­jau só ver­dadeira­mente me in­ter­es­sa aque­la povoaçãoz­in­ha de pescadores que que­bra a as­pereza e a es­curidão da pon­ta de São Lourenço. O ide­al da Guar­da Fis­cal... A to­lice de quer­er sei' faroleiro... Co­mo o out­ro que diz: «És vel­ho e to­lo, ra­paz!» 

  Mas que have­mos de faz­er di­ante de ter­ra firme, senão vog­ar? Eu quero bem aos mares e às il­has. Nun­ca pas­sei em nen­hum re­cife de coral, mas sei a história da il­ha Sab­ri­na, que apare­ceu e de­sa­pare­ceu jun­to de São Miguel de­pois de os in­gle­ses lhe terem crava­do uma ban­deiro­la in­útil.

  Tam­bém gos­to de fur­nas, de pom­bos bravos, de per­rex­il e de bace­lo. Um con­ti­nente é uma coisa muito grande e in­cer­ta para mim. A il­ha é mais cur­ta. Sai mel­hor das águas. De longe parece um pão. Ao per­to é o que é: uma rocha com casas; gente den­tro. Em ger­al há muito peixe, al­gu­ma caça e pasta­gens. Co­mo há pasta­gens, há carneiros e, haven­do carneiros, há lã para a gente se ve­stir. Pode-​se mor­rer des­cansa­do nu­ma il­ha. A co­va nem por is­so é mais cur­ta. 

  Já ali vem a canoa da Saúde. 

  -Força à ré! 

  V. O Primeiro Ca­gar­ro 

  14 de Ago6to de 1946

  En­fim... De­pois de umas vinte e qua­tro ho­ras de céus azuis car­rega­dos, destes que en­gas­tam os dor­sos sub­trop­icais da Madeira -vinte e qua­tro ho­ras mais de céu e mar, mas já páli­dos e cínzeos, adi­vin­han­do as primeiras par­agens dos Açores. O mar, sim!, que é es­curo, azul-​fer­rete. Mas o céu, onde pairam aqui e além, jun­to ao hor­izonte, pe­quenos nim­bos cor de péro­la, esse gan­ha um tom des­ma­ia­do, que o pôr do Sol alaran­ja e tamisa. 

  Ain­da se não vê ter­ra, e já o faro do aço­ri­ano reg­ista a viz­in­hança da la­va, pal­pi­ta as primeiras rochas pela primeira ban­da­da de gaiv­otas que vêm ten­tear a gávea do navio. Mas já um binócu­lo mais apli­ca­do de­sco­briu uma mas­sa es­cu­ra, uma es­pé­cie de pão à bo­ca do forno. San­ta Maria! Os primeiros ca­gar­ros -o sim­páti­co palmí­pede que deu a al­cun­ha aos Mariens­es -de­sen­ham nos seus voos de re­con­hec­imen­to os primeiros de­bruns de cos­ta. Já se dis­tingue a pon­ta de São Lourenço com o seu farol al­teroso, e uma cadeia de mon­tan­has que a nos­sa imag­inação ex­ac­er­ba­da supun­ha ar­rasa­da (ou pouco menos…) pelas obras do grande aeró­dro­mo. Mas, de­va­gar!. .. O mecan­is­mo pré-​atómi­co não vai tão longe co­mo is­so. Ape­sar das pis­tas, dos hangares, das bal­izas, a il­ha de San­ta Maria ain­da tem es­paço para um ca­gar­ro pousar e fun­dura de so­lo bas­tante para uma mancheia de pas­to. 

  E, se não tem mais veg­etação, a cul­pa não é dos amer­icanos, que es­tão a largar a il­ha de­pois de terem feito dela uma base mod­er­na e bem ape­trecha­da. É que es­ta ter­ra sem­pre foi po­bre de cho­rume, mal se­gu­ran­do umas pasta­gens dis­per­sas pelas en­costas e al­guns mi­mos se­mea­dos no sainte da vi­la, em di­recção a Valverde. O pão, e até hor­tal­iça e fru­ta, vão-​lhe de São Miguel. O seu as­pec­to, tiran­do-​se-​lhe os viçosos vales de além da ser­ra e os vin­he­dos de San­to Amaro, é bas­tante des­ola­do e áspero. A vi­la é um cordão de casario na em­inên­cia do por­to. Con­stru­iu-​a ali a gente de Gonça­lo Vel­ho, temen­do os as­saltos da pi­rataria argeli­na -e talvez de corsários co­mo eu. .. Do varadoiro até ao al­to ur­ban­iza­do vai uma faixa de cam­in­ho que os amer­icano