etáli­cos e sus­pen­sórios di­ver­sos, são il­héus de San­ta Maria que, tra­bal­han­do no cam­po des­de as primeiras ter­raple­na­gens, se adap­taram ao mo­do de vi­da amer­icano a pon­to de ve­stirem co­mo ne­tos de Tio Sam ... Sol­da­dos por­tugue­ses guardam a saí­da das pis­tas so­bre o cam­in­ho da vi­la.

  De re­gres­so, na camione­ta de fa­vor, en­tramos em Vi­la do Por­to pe­lo la­do de Valverde. Não há que es­con­der de ninguém uma re­al­idade vi­va: a povoação é po­bre, lon­ga e triste. São duas fi­las de casas à bor­da do cam­in­ho que le­va ao in­te­ri­or da il­ha; e, se não fos­se um ou out­ro le­treiro lu­so-​in­glês, e meia dúzia de fachadas alin­dadas mod­er­na­mente, dir-​se-​ia es­tar­mos nos tem­pos de Gonça­lo Vel­ho e do ne­gro de ol­hos de lince que viu pela primeira vez as lom­badas de São Miguel... 

  So­rum­báti­ca e es­pal­ma­da, a Vi­la do Por­to as­siste ao prodí­gio do seu aeró­dro­mo-​mon­stro com ol­hos an­tiquís­si­mos. Lá es­tá a típi­ca araucária das cidades e vi­las in­su­lares. Lá es­tá a casa que foi do do­natário e povoador. E as igre­jas vel­has, acaça­padas, mis­to de pom­bal e de casa de Deus ... 

  O casario al­vo de neve (San­ta Maria é uma il­ha dos Açores que tem pe­dra e cal) foi ago­ra bar­ra­do de al­ma­gre, de ver­mel­hão, de verde, a fim de re­ce­ber a be­sun­tadela bilingue dos le­treiros cos­mopoli­tas. Este que diz «por­tugues­mente»: Nós garan­ti­mos in­teira sat­is­fação, diz em in­glês, abaixo: We guar­an­tee you en­tire sat­is­fac­tion... 

  E real­mente quem lá vai vem bem servi­do. Jan­ta­mos num restau­rantin­ho mod­er­no, for­ra­do de madeira, a nos­sa porção côn­grua de peixe, carne, vin­ho e fru­ta. De­sce­mos ao por­to. É tarde. Uma luz de crip­ta doura os tel­ha­dos mariens­es, mostra os cober­tos dos abar­ra­ca­dos do cam­po ao longe. Às janelas das casas sec­ulares as­so­mam al­gu­mas ra­pari­gas. Pare­cem ar­ran­cadas a tábuas de igre­ja ou não sei a que matéria abol­ida ... Feias? Boni­tas? A tarde parece ex­umá-​las de um her­bário. Vêem-​se para lá das vidraças de guil­hoti­na as fol­has pe­lu­das das begó­nias que as avós legam às ne­tas e as ne­tas às mães das bis­ne­tas ... 

  Por quan­to tem­po o mo­tor do avião vai deixar tran­quilas as plan­tas de est­ufa às sen­ho­ras mariens­es? De­sa­pare­cerá em breve es­ta vi­la de son­ho, per­di­da no tem­po e no cal­can­har do Atlân­ti­co, sub­sti­tuí­da por este mon­stru­oso por­ta-​aviões de rocha, imóv­el no mar? Ou, pe­lo con­trário, são as sober­bas mecâni­cas o con­de­na­do à morte? 

  En­tre­tan­to, no por­toz­in­ho sec­ular, a casa da Guar­da Fis­cal, hu­milde pa­radeiro de tu­do o que é para en­trar ou sair, ain­da se lev­an­ta à me­di­da da breve e paca­ta pop­ulação de out­ro­ra. Ali ain­da ninguém mexeu. Ali, e no largoz­in­ho so­bran­ceiro ao por­to, onde es­tá uma er­mi­da, um muro de de­fe­sa e uma casa de tec­tos amol­ga­dos, de janelas de vidros mi­ud­in­hos, com um bal­cão e uma cham­iné: o bas­tante para morar. 

  Good-​bye, San­ta Maria! Nos­sa Sen­ho­ra da As­sunção de Vi­la do Por­to te con­serve em boa paz ... 

  VI. Corisco…

  31 de Jul­ho de 1946

  As cidades dos Açores não foram urbes traçadas a rego de ara­do, nem em­pórios cresci­dos em em­bo­caduras de rios férteis, nem aglom­er­ados feitos em ar­ra­iais de feiras ou em grandes nós de co­mu­ni­cações ter­restres nat­urais. De nove il­has que con­ta o ar­quipéla­go só duas tiver­am du­rante qua­tro sécu­los o tim­bre de cidade: a Ter­ceira e São Miguel. An­gra e Pon­ta Del­ga­da cresce­ram primeiro co­mo fix­adores das pop­ulações dotadas de maior área in­su­lar, e lo­go co­mo chaves 