les ribeira e com meia dúzia de mós. 

  As palavras cor­sair­in­ho e cor­saira, ca­da uma em seu ex­tremo semân­ti­co de ter­nu­ra e de avil­ta­men­to, ain­da lá es­tão, no vo­cab­ulário di­alec­tal, a at­es­tar a re­sistên­cia do prim­iti­vo il­héu à sol­idariedade transatlân­ti­ca. É cer­to que, nos ca­sos do cor­so, sol­idariedade bas­tante arisca e in­disc­re­ta... 

  Mas (ai de nós, en­joa­dos do Car­val­ho Araújo e ex-​pas­sageiros do va­por Fun­chal!) a re­be­lião aço­ri­ana con­tra o mar al­to, nos­so cordeiro e nos­so lobo, foi ce­do su­fo­ca­da. In­stalou-​se em An­gra a Prove­do­ria-​Mor das Ar­madas que re­gres­savam da Ín­dia e procu­ravam naque­le desvio a se­gu­rança das suas car­gas. Paulo da Gama lá dorme, ao pé dos nave­gadores da Ter­ra do Ba­cal­hau e da Ter­ra do Labrador. E os Es­pan­hóis, para­dox­ais in­ven­tores da In­vencív­el Ar­ma­da, temen­do o conde de Es­sex e os seus im­placáveis almi­rantes, tiraram o sossego às il­has: fiz­er­am de An­gra um por­to mil­itar, adi­vin­haram o por­to aéreo das La­jes e o de San­ta Maria, antes que Roo­sevelt pro­nun­ci­asse es­tas graves e talvez fe­cun­das palavras: hem­is­fério oci­den­tal. 

  Sig­amos o «car­reiro de formi­gas» que os Açores acei­tan­do o sím­bo­lo miniat­ural das il­ho­tas ad­ja­centes a São Miguel -per­fazem hu­milde e cora­josa­mente jun­to do Atlân­ti­co abissal. Eles lá es­tão cer­ra­dos, vul­câni­cos, nave­gan­do em pa­trul­ha, de ata­la­ia à lin­ha hem­is­féri­ca que tan­to di­vide o Norte e o Sul atlân­ti­cos co­mo equi­li­bra os con­ti­nentes do Leste e do Oeste da Ter­ra. 

  É no cen­tro ra­di­al dessa rosa ge­ométri­ca que se an­in­ham as pe­que­nas cidades aço­ri­anas, cheias de sen­ti­do marí­ti­mo, de tra­bal­ho reclu­so e cal­mo, de co­munhão hu­mana pe­lo iso­la­men­to e pela lon­gi­tude -en­fim destas coisas sérias e sem nome que são a vi­da e que o es­ti­lo arredon­da e es­quadria ar­bi­trari­amente, co­mo o cartó­grafo ... 

  In­fe­liz­mente, não há ma­pa de cores -e muito menos cor-​de-​rosa ... -para os sen­ti­men­tos que com­põem a nos­sa ex­istên­cia var­iáv­el co­mo o ven­to, e ape­nas firme nu­ma teimosa refer­ên­cia a al­guns tor­rões de la­va se­mea­dos no mar. Ar­risco-​me, pois, co­mo puro ar­mador de navios imag­inários, a faz­er, dos leitores, pas­sageiros sem se­gu­rança nem ru­mo cer­to, nu­ma vi­agem que sin­to poder du­rar meses num quar­to de ho­ra, e em que lh­es dou, sob pre­tex­to de um rápi­do tur­is­mo evoca­ti­vo, um mísero ran­cho de proa, e por­tos enevoa­dos ... 

  Ar­rib­amos já a Pon­ta Del­ga­da, em­ban­deira­da na sua ar­caria de hon­ra, fecha­da nos palá­cios e nos par­ques que abrem, por ex­cepção, a grade e a gelosia. Ape­sar de ex­ul­tar ain­da há pouco nos seus qua­tro­cen­tos anos de no­breza civ­il, a cidade es­tá ain­da meio amodor­ra­da nas suas nu­vens per­pé­tuas e nas cores mor­tas das casas. O al­to da Mãe de Deus é co­mo que o reg­is­to da il­ha séria e aldeã do Sen­hor da Pe­dra. O Sen­hor San­to Cristo dos Mi­la­gres es­tá do­lori­do e fecha­do na Es­per­ança; é o sudário da il­ha dos tra­bal­hadores po­bres e hon­ra­dos, que falam cer­ra­do, tangem o as­no das lom­bas, es­tru­mam as est­ufas, tal­ham os blo­cos da do­ca. A primeira pre­sença da il­ha é a de­les nas lan­chas do tráfego. O ar­can­jo São Miguel couraça-​se nos seus chapeuz­in­hos fu­ra­dos, tem o lume da es­pa­da nos po­bres cigar­ros que lh­es vão cre­stando os de­dos. 

  Pe­lo menos para nós, il­héus das il­has de Baixo, a al­ma de São Miguel é ne­les que as­so­ma e se rev­ela à chega­da. A solidez da ter­ra es­tá naque­les ca­los de re­mo, naque­les anti­go