s bigodes que são o di­ver­ti­men­to das mãos sem tem­po para mi­mos, e nos ol­hos com­pri­dos de verem o fun­do à rasa do mil­ho e o fun­do ao mar da do­ca. Eles ar­rotear­am os bal­dios; cavaram com a enx­ada de fer­ro mais lon­go que se em­pre­ga nas il­has o fér­til Cam­po da Vi­la; plan­taram o chá e o taba­co que as fil­has de xale e lenço en­ro­lam pi­ca­do nos cigar­ros; es­col­her­am o ananás emalota­do por suas mãos; car­regaram-​no a bor­do; chegaram carvão às caldeiras que o trans­portam ao Havre e a Lon­dres. Aque­le ninguém que es­brace­ja em di­recção ao por­taló do nos­so pa­que­te, e quer ser o primeiro a lançar o croque à es­ca­da, larga uma pra­ga – «corisco!» –, que fi­cou de brasão ao po­vo mi­cae­lense na lin­guagem das il­has de Baixo. E quem sabe se a al­ma daque­la gente de hon­ra e de ner­vo não foi fei­ta do raio que abrasa os preguiçosos e os hipócritas? ... 

  As ca­madas mé­dias da hu­manidade de São Miguel levaram muito tem­po a aflo­rar; mas ho­je já quase sub­mergem uma no­breza ter­ri­to­ri­al que, cumpri­da no sécu­lo pas­sa­do, por al­guns dos seus mem­bros, a mis­são de reestru­tu­rar a civ­iliza­ção de­masi­ado ren­deira da il­ha, se tem dis­per­sa­do pouco a pouco no ab­sen­tismo sump­tuário, en­grossan­do a ol­hos vis­tos as fileiras bur­gue­sas e até os quadros pro­letários do tra­bal­ho. Pois não é sim­bóli­ca a con­ver­são moral de An­tero, de­scen­dente de nave­gadores e quase grande pro­pri­etário, no efémero tipó­grafo as­ceta e so­cial­ista de Paris? E o re­cur­so de Teó­fi­lo Bra­ga, fil­ho de agen­ciário e de fi­dal­ga, ao tra­bal­ho as­salari­ado de que surgiu le­tra­do e self-​made man? 

  Em mea­dos do sécu­lo XIX a aris­toc­ra­cia fundiária de São Miguel dá a sua flor de es­forço num grande homem modesto -José do Can­to -, cu­jas ac­tivi­dades mecenáti­cas es­tão na base da grandeza cívi­ca e la­bo­riosa da il­ha. É ele que acli­ma­ta o chá e o taba­co in­dus­tri­al­iza­do por José Ben­saúde, ex­poente da al­ta bur­gue­sia de Pon­ta Del­ga­da e chefe da família que aju­dou a com­er­cializar o seu por­to, ram­ifi­cou na Hor­ta mo­bi­lizan­do o carvão e os re­fres­cos, aceler­ou as co­mu­ni­cações in­su­lanas, ded­ican­do-​se ao arte­sana­to de vi­oli­nos, à etno­grafia, à re­for­ma do en­si­no su­pe­ri­or téc­ni­co em Por­tu­gal, à al­ta cirur­gia, à história dos De­sco­bri­men­tos, à fi­topa­tolo­gia... Re­firo-​me prin­ci­pal­mente aos nomes de Al­fre­do, Raul, Joaquim e Matilde Ben­saúde. 

  Os ir­mãos Can­to, out­ra célu­la fa­mil­iar da es­tru­tu­ra do po­vo mi­cae­lense, pas­saram a vi­da: um a povoar a sua il­ha de ár­vores e de flo­res, José do Can­to; os out­ros -Ernesto e Eu­génio -e o próprio José do Can­to a enchê-​la de bib­liote­cas em que se toma con­sciên­cia do pas­sa­do aço­ri­ano, dos de­sco­bri­men­tos por­tugue­ses e do génio de Camões. 

  Rober­to Ivens, com a sua cara­bi­na e a sua ten­da de ex­plo­rador, pa­ga o hon­ra­do trib­uto da pop­ulação ad­ven­tí­cia de Pon­ta Del­ga­da, ori­un­da dos es­trangeiros que lhe eu­ropeizaram o comér­cio, nu­ma vi­da de pi­oneiro, sol­da­do práti­co do Im­pério, il­héu corre­dor de lat­itudes. O padre Sena Fre­itas sal­da em prosa a sua dívi­da pa­trióti­ca de fil­ho de con­ti­nen­tal acol­hi­do à grei aço­ri­ana. As­sim a bi­ografia, género aparente­mente tão in­di­vid­ual e anedóti­co, nos vai en­si­nan­do que a história não é um teci­do lux­uoso e ab­strac­to de acções mil­itares e políti­cas, mas a vi­cis­si­tude fa­mil­iar, a tradição vivi­da, o mis­tério da vo­cação.

  De­ve­mos a José Ben­saúde o pre­cioso teste­munho das úl­ti­mas ho­ras de vi­da