 de An­tero de Quen­tal: as suas dis­posições aparentes, o es­ta­do do tem­po na sua il­ha na­tal e mor­tal, o mis­tério tremen­do das palavras ba­nais que uma pes­soa diz quan­do o des­ti­no já vai fechan­do as por­tas da morte e tapan­do as saí­das do úl­ti­mo apego de um «talvez». E de­ve­mos a Ernesto do Can­to da Ma­ia, es­cul­tor, a defini­ti­va at­itude desse mes­mo An­tero na paz da sua cidade, já cal­mo e de már­more, que é a tradução da sub­stân­cia da eternidade no nos­so po­bre vo­cab­ulário de sim­ples so­bre­viventes. As­sim os teci­dos mais vivos do po­vo mi­cae­lense se or­ga­ni­zam de mo­do a dar ao his­to­ri­ador so­ciól­ogo o dis­pos­iti­vo sim­bóli­co da hu­manidade da il­ha, que abre na flor imarcescív­el de um po­eta e filó­so­fo eu­ropeu: An­tero de Quen­tal. 

  Mas a nos­sa vi­agem es­tá no fim. Le­vo afi­nal os leitores a por­to de sal­va­men­to ... Ten­ho pe­na de lh­es não ter mostra­do, a es­ti­bor­do, os muros de An­gra, a sua cruz apos­tóli­ca, os pas­tos dor­mentes da Ter­ceira, os Il­héus e o Fanal -que ain­da ho­je (mes­mo apa­ga­do) me não deixa perder a certeza da ter­ra e do sangue. Tam­bém gosta­va de vos me­ter no canal do Fa­ial e de sur­preen­der a Hor­ta no seu son­ho de cidade tele­grá­fi­ca e de ramo verde es­ten­di­do para que os grandes pás­saros in­ter­con­ti­nen­tais pousem um pouco ... Mas, na pe­que­na e per­fei­ta democ­ra­cia das cidades aço­ri­anas, ho­je fa­lo de uma só.

  O reló­gio de Pon­ta Del­ga­da ol­ha o Atlân­ti­co in­su­lano e co­man­da-​lhe to­dos os ru­mos. São cer­ca de três ho­ras da tarde para o car­regador da do­ca, para o cavador das Fur­nas, para o oleiro da Lagoa. Já se ou­ve tropicar o as­no da Ribeira Grande de vol­ta a casa. Daqui a pouco as camione­tas de Vi­la Fran­ca e da Povoação ar­ran­cam do Largo da Ma­triz. E uma janela que não tar­da a bril­har na paz das Capelas, out­ra em Ros­to de Cão -além do farol ex­ac­to da pon­ta dos Mosteiros, a primeira luz­in­ha longín­qua das min­has an­dadas por este mun­do. Um «corisco» dos Ar­rifes, meu hu­milde ir­mão do berço e do cárcere atlân­ti­cos, saú­da-​me com o ét­ni­co e lev­emente in­cor­rec­to nome de «rabo-​tor­to». Mas eu gos­to; eu com­preen­do ... En­ten­de­mo-​nos bem com es­tas pe­que­nas liber­dades ca­seiras, ex­pres­si­vas dos nos­sos seres e das nos­sas coisas, das cóleras sagradas dele e do meu «fra­co» ter­ceirense pe­los toiros, pela hege­mo­nia históri­ca, pe­lo pão-​de-​leite com uma flor na cabeça e por não sei que mais. Eu, achan­do-​o um pouco tac­iturno, in­ve­jo-​lhe a en­er­gia e a paz de al­ma, a po­breza pop­ular que nu­tre a riqueza públi­ca, e aque­le falar cav­er­noso que me deixa to­car-​lhe nas en­tran­has. Ami­go sã-​miguel, des­den­hoso de ociosos -boa tarde! Co­mo há poucos gan­hos nos Ar­rifes, vi­este para Pon­ta Del­ga­da e ago­ra tra­bal­has na lanch­in­ha. Eu fiz-​me pi­lo­to e ex­plo­rador de metá­foras... 

  VII. Uma Pista de Aviões Nu­ma eira 

  1 de Novem­bro de 1946

  A Ter­ceira é uma il­ha de carác­ter agro-​pecuário, a que a guer­ra deu subita­mente grande im­portân­cia es­tratég­ica co­mo nó transatlân­ti­co de co­mu­ni­cações aéreas. A sua grande eira, o Ramo Grande, tornou-​se de re­pente uma pista colos­sal de aviões. A pesca, out­ro­ra abun­dante e vari­ada, en­con­tra-​se ali ho­je ex­trema­mente re­duzi­da, ape­sar de uma re­cente in­dús­tria con­serveira, que ar­ma ela própria al­gu­mas em­bar­cações que vão ao boni­to e à al­ba­co­ra. As­sim, da vel­ha cin­tu­ra de port­in­hos de pesca que enchi­am o mer­ca­do lo­cal de tan­to e tão fi­no «peixe de cal­do» (abróteas, garoupas, ro­cazes, bo­cas-​ne­gras), res­ta, ape­n