zasse que ali tin­ha es­ta­do de cas­ti­go um amante in­fe­liz ou um traidor. 

  Os il­héus das Cabras não tin­ham cabra al­gu­ma, mas uma cis­ter­na sa­lo­bra e meia dúzia de carneiros. Eu, que tin­ha a ma­nia da ge­ografia fan­tás­ti­ca, chama­va-​lh­es a Ter­ra do Per­rex­il -a plan­taz­in­ha rasteira, de fol­ha car­nu­da co­mo a da bel­droe­ga, que se cur­tia num fras­co e nos servia de pick­les. Mas a grande lição dos Il­héus não era nem o per­rex­il, nem o carneiro: era a pro­va prova­da do nos­so em­pareda­men­to num vas­to cal­hau atlân­ti­co: por as­sim diz­er, a es­tá­tua da nos­sa solidão ar­ran­ca­da das nos­sas en­tran­has e ali pos­ta, jun­to ao Por­to Judeu, co­mo o sím­bo­lo de um des­ti­no e o padrão de uma vi­da in­te­ri­or. 

  Do es­pec­tácu­lo dos il­héus das Cabras, a que uns ca­chopos mais longín­qu­os davam pro­jecção e tris­teza, passá­va­mos à visão di­utur­na das primeiras il­has de Baixo. An­gra, co­mo vel­ha «cabeça e corte das mais il­has», no diz­er de Fru­tu­oso, tin­ha São Jorge e o Pi­co ao al­cance dos tor­reões do seu caste­lo his­pâni­co, ele próprio tor­rea­do num ist­mo, co­mo que no flan­co de out­ra il­ha -o trí­plice e tac­iturno Monte Brasil dos facheiros. Do Tor­reão dos Mosquitos via-​se, para lá das quin­tas ribeir­in­has do Cam­in­ho de Baixo, a grande bar­ra verde, roxa, gris, azu­la­da da il­ha de São Jorge, tão sen­sív­el às manobras do sol co­mo um toiro puro à ca­pa do mata­dor. Por de­trás, co­mo uma cabeça à espre­ita, sur­gia a ag­ul­ha ir­re­al e es­bran­quiça­da do Pi­co.

  Em dias lu­mi­nosos e níti­dos (garan­ti­am al­guns) via-​se roupa a corar... Com mais forte razão se avis­taria uma casa ou out­ra, se as hou­vesse na falésia áspera e feia, co­mo que cor­ta­da a cute­lo, que é o la­do de São Jorge visív­el da ban­da de cá. Mas já estes «diz-​se» e «con­sta» da vis­ibil­idade en­tre as il­has er­am uma sen­ha mis­te­riosa. Aprendíamos pe­los ol­hos a ex­istên­cia de mais mun­do, mas mal queríamos cr­er... tão pe­queno era o es­paço em que nos movíamos da vi­da à morte e taman­ho e tão sal­ga­do o mar que nos rodea­va e enchia.

  Uns quilómet­ros mais para oeste, no sen­ti­do das rochas in­abor­dáveis da il­ha, e di­visa­va-​se out­ro cal­hau longín­quo: a Gra­ciosa. Esse fi­ca­va es­pal­da­do pela hós­tia do Sol ao mor­rer -um Sol en­car­na­do e re­don­do, cu­jo co­biça­do e raro raio verde pare­cia tira­do às tin­tas dos pin­hais da Ser­re­ta e das al­gas do mar do Peneireiro. 

  Il­héu do Norte (o sug­es­ti­vo Es­par­tel das car­tas de marear)... il­héus das Cabras ... São Jorge ... o Pi­co a meio bus­to e coroa­do de nu­vens per­pé­tuas... en­fim, o pão pre­to da Gra­ciosa no ex­tremo oeste ... -e es­ta­va fecha­do o aro do nos­so con­fi­na­men­to atlân­ti­co, a que aque­las amostras de rocha es­mal­tadas de pas­to e de cores bú­cias davam uma promes­sa de con­vívio. 

  Oh, solidão das il­has! ... Con­quista da ter­ra por firmeza no pouco que se tem e por tino e re­cuo a tem­po no muito que se de­se­ja ... Por­tos fecha­dos, il­has à vista ... En­tre nós e o mun­do aque­la porção de sal que tor­na in­cor­rup­to o aro da ter­ra ... Movi­men­to e força; out­ras vezes tran­quil­idade e pas­mo... Ex­ten­são... Ex­ten­são... (E, por mais que em­bir­re­mos com ret­icên­cias, que são es­pas­mos ti­pográ­fi­cos, a coisa é as­sim mes­mo. . . Tem de ex­prim­ir-​se nes­ta dose ex­ac­ta de ex­al­tação e de pou­ca sin­taxe ... ) Il­has pon­tu­adas naque­la bru­tal­idade oceâni­ca que é afi­nal a úni­ca coisa del­ica­da e disc­re­ta da nos­sa vi­da -o mar do nos­so seg­re­do... a vol­ubil­idade do nos­so ar­dor que na­da es­tanca... es­ta i