­eiro que é o sóli­do com­ple­men­to económi­co de An­gra e que tão sub­til­mente se in­sin­ua na sua ex­pressão ur­bana. A praça de toiros, na raiz da Cana­da No­va, é o col­iseu da ter­ra. Os leit­eiros, de camisão bran­co e de cara­puça de meia, são, com os vendil­hões de fru­ta e de peixe, os des­per­ta­dores da cidade. As car­rocin­has e char­retes que de­man­dam, de travão aper­ta­do, a Praça Vel­ha, acusam por al­gu­ma for­ma a om­nipotên­cia e a om­nipresença lo­cal do leite e do ga­do: al­gu­ma mal­heta de ra­ma na boleia; uma la­ta que vai a con­ser­tar; o bor­dão lev­an­ta­do do pas­tor que vai prestar con­tas a «meu amo», 

  Ain­da mais mar­cada­mente ru­ral do que a ex­pressão de An­gra é a da Pra­ia da Vitória -e não porque lhe fal­tem pri­mores ur­banís­ti­cos no am­plo traça­do citadi­no, cu­ja vi­da de­cu­pli­cou com o movi­men­to do aero­por­to das La­jes: mas porque as suas saí­das, o seu dis­pos­iti­vo es­pra­ia­do, ao fun­do da en­cos­ta forte­mente ru­ral da ser­ra do Paul e à en­tra­da da planí­cie ce­re­alífera do Ramo Grande, lhe dão uma tex­tu­ra de as­sen­to de lavoura. An­gra co­mo que é mais pas­to­ril; a Pra­ia da Vitória mais agrí­co­la. 

  Quase pela­da de ár­vores, com um rele­vo abati­do e de co­tas arredondadas, a il­ha Ter­ceira abre ao vi­ajante as suas fortes veias de fer­til­idade e de tra­bal­ho. A estra­da litoral de­brua-​se de casas de lavoura, ape­nas mais den­sas nas abas da igre­ja paro­quial. porque a área de fo­gos, por as­sim diz­er, não se in­ter­rompe senão para deixar que a área agricultáv­el respire de traça hu­mana. Va­mos cingin­do, com as voltas do nos­so car­ro, as pare­des de pe­dra sol­ta, o cai aço bran­co do casario avi­va­do de bar­ras mul­ti­cores, a «bur­ra» e o «pião» de mil­ho es­co­ra­dos nos pá­tios domés­ti­cos, a ce­vadil­ha ou es­pir­radeira (lau­ri­er rose), co­mo na Palesti­na, que, al­ter­nan­do com o gi­ras­sol, o cardeal ou o malvão, ale­gram a en­tra­da de casas e per­fumam o traço da por­ta, com uma fi­ada de mo­gan­gos.

  De onde em onde, um álamo ou dois acusam a ponte da ribeira que fez nascer o povoa­do ou deu cruza­men­to aos cam­in­hos. Até os álam­os se aproveitam para ar­ru­mar o mil­ho! Com al­tos anéis de zin­co, co­mo gal­in­has calçadas de retrós, es­sas ár­vores su­por­tam nas per­nadas mais fortes os «cam­bul­hões de mil­ho» -pe­quenos montes de es­pi­gas («so­cas») lig­adas pela ca­ma­da ex­te­ri­or das suas ca­pas de pal­ha, que se ar­repi­am e atam com fi­bra de es­padana ou de vime. E do Ou­tono ao In­ver­no, à ro­da da il­ha, as fregue­sias da Ter­ceira pare­cem falar-​nos de den­tro do bio­co bran­co e roxo-​rei das suas casas coroadas de mo­gan­gos e de mil­ho. 

  Ter­ra abun­dante, que cheira por to­da a parte a la­va e a pê­lo de boi, com água a can­tar nas bi­cas pri­vadas e públi­cas, grandes cha­farizes e bebedoiros cheios de ga­do lavra­do, saro, pi­car­do, es­tre­lo, la­gar­to, fus­co, mu­la­to ... Ter­ra plan­tur­osa, de pal­has imen­sas ajou­jan­do as chedas dos car­ros no Verão e no Ou­tono; de verdes per­pé­tu­os que ar­rel­vam as suas des­oladas ex­ten­sões in­te­ri­ores: o ma­to, o mofe­do, o «va­dio». 

  Na Pri­mav­era, so­bre­tu­do, os nevoeiros co­brem as pasta­gens de uma nu­vem húmi­da e volante, que chega a em­bebe­dar. É o «bar­bu­do», propí­cio à trevin­ha e à er­va-​da-​cas­ta que enchem os amo­jos às va­cas, mas des­fa­voráv­el ao homem, a quem não deixa ver um pal­mo adi­ante do nar­iz…

  Va­mos à primeira toura­da à cor­da des­de que chegá­mos à il­ha. Agual­va. É uma das raras fregue­sias in­te­ri­ores e mon­tan­hosas. A ser­ra da Agual­va ne­gre­ja de longe aos ol­hos de quem,