 atrav­es­san­do o descam­pa­do e húmi­do in­te­ri­or, de­man­da os ra­mais norte e leste da estra­da cen­tral. Uma toura­da à cor­da é um di­ver­ti­men­to in­crív­el... Os cam­in­hos coal­ham-​se de gente. Ran­chos de ra­pazes, de bor­dão às costas, arredam-​se à pas­sagem das car­rocin­has típi­cas da il­ha: dois cur­tos as­sen­tos per­pen­dic­ulares ao da boleia, an­teparos lat­erais e port­in­ho­la atrás. O ex­te­ri­or da caixa é sara­pin­ta­do de cores vi­vas. O mach­in­ho ou o gar­ra­no, en­fi­ados nos varais e sacud­in­do as guizeiras, avi­vam o trote trop­ica­do. Mas tam­bém há éguas e cav­al­os de rompante que, ajaeza­dos de amare­lo, fazem arredar a fi­la com­pas­sa­da e sendeira. 

  Lá vão, nas car­rocin­has a1ceiras, as seis pes­soas da praxe: o pai, a mãe, as duas ou três ra­pari­gas, os dois ir­mãos ou o ir­mão e o viz­in­ho de mais per­to. Parece mi­la­gre que cai­ba em tão es­cas­sa bo­ceta tão com­pli­ca­da família. Mas cabe .. . E às vezes ain­da se ar­ran­ja lu­gar para um in­es­per­ado ou in­trometi­do ... 

  No ar­ra­ial com­pacto, jun­to do largo da igre­ja, abre-​se uma clareira de pâni­co. É o toiro que as­so­mou na pon­ta de uma cor­da com­pri­da, em­bo­la­do e amar­ra­do pe­lo pescoço. Uns seis pa­stores de camiso­la bran­ca aco­co­ram-​se na estra­da em­pun­han­do o out­ro ex­tremo. Com a força do im­pul­so, são pro­jec­ta­dos al­guns met­ros adi­ante; mas o toiro que­bra de ím­peto. Is­to é «dar a pan­ca­da». En­tão os en­graça­dos vêm abrir e ag­itar di­ante do boi os guar­da-​chu­vas, os casacos, os chapéus, as ver­dasquin­has... Uma at­mos­fera de as­sua­da e de pó en­volve tu­do -até que, ao bom­bão que anun­cia a recol­ha do úl­ti­mo toiro, começa o des­file da re­ti­ra­da. A al­ma da Ter­ceira en­con­trou mais uma vez no toiro pre­so o pre­tex­to para a sua ex­pan­são rui­dosa e pueril. Dois chocal­hos ao longe e uma guizal­ha­da per­to mar­cam este bú­cio fim de fes­ta. O farol verde do cam­po de avi­ação das La­jes, à margem deste mun­do castiço e labroste que re­ti­ra, pi­lota out­ro mun­do que avança a qua­tro mo­tores e que o matará. 

  VI­II. As Der­ro­tas de Oeste 

  18 de Setem­bro de 1946

  Quan­do pen­sa­va fixar-​me na min­ha pá­tria Ter­ceira os dois meses de férias e de aven­tu­ra in­su­lana a que me atre­vi, eis que um con­vite in­stante de ami­gos das il­has de oeste vem que­brar o meu primeiro tor­por de fal­so tur­ista. In­ti­mam-​me que par­ta. As sereias anti­gas, da Gra­ciosa para baixo, ali­ci­am-​me. A próx­ima par­ti­da de um re­bo­cador de al­to mar faz o resto. 

  Não há na­da que de­sen­he tão bem o em­pareda­men­to do il­héu co­mo es­ta con­stante ref­er­en­ci­ação do seu mun­do abre­vi­ado aos out­ros pe­quenos uni­ver­sos rodea­dos de água sal­ga­da: es­ta pre­ocu­pação, so­bre­tu­do es­ti­val, de não perder con­tac­to com o semel­hante re­mo­to. Uma cab­otagem de bar­cos do Pi­co as­se­gu­ra de Verão, nos Açores, as co­mu­ni­cações en­tre as il­has cen­trais e ori­en­tais. Só as Flo­res e o Cor­vo, sep­aradas por muitas dezenas de mil­has do grupo maior do ar­quipéla­go, es­tão ex­cluí­das da re­co­vagem. Por is­so são elas as freiras ex­em­plares da co­mu­nidade atlân­ti­ca: as que vêm rara­mente ao lo­cutório; as que se fecham nas celas com mais gos­to de paz e amor de solidão.

  O bar­co do Pi­co é um cav­er­name aber­to, na­da el­egante, de pouco mais de meio cen­to de toneladas, que ar­ma duas ve­las lati­nas e sin­gra de por­to em por­to e de canal em canal, car­regan­do tel­ha, leitões, ces­tos de fru­ta, chapéus de pal­ha, e uma re­duzi­da hu­manidade ha­bit­ua­da à reben­tação da cos­ta e à va­ga de través. 