Nunes Broth­ers, o há­bil e afoito con­stru­tor de não sei onde na Cal­ifór­nia, mas fil­ho legí­ti­mo e fiel da fregue­sia de San­to Amaro da il­ha do Pi­co, es­tá en­car­reiran­do, na di­ta fregue­sia, onde se en­con­tra a férias, um cas­co de cem toneladas, «coisa as­sea­da!», fil­ha do en­gen­ho na­ti­vo de Nunes Broth­ers enx­er­ta­do na boa tradição calafate de San­to Amaro, com uns poz­in­hos de téc­ni­ca ianque. Es­sa unidade caboteira virá rev­olu­cionar a nave­gação dos mares das il­has. Mas, por en­quan­to, vig­oram os vel­hos mod­elos do Ribeirense e do San­to Amaro, «de bo­ca aber­ta» e a mo­tor po­bre, onde o ce­va­do pode al­ternar com o pas­sageiro e o ata­do de ga­lochas faz­er con­cor­rên­cia à mala de state room.

  Já meio re­solvi­do a ten­tar a aven­tu­ra a bor­do de um dess­es tran­scanais, sou avisa­do da chega­da de um navio-​mo­tor da praça de Pon­ta Del­ga­da, miniatu­ra de pa­que­te que acor­da a baía de An­gra com os três fra­cos sil­vos da sua paca­ta sereia. Que saudades aqui­lo me faz dos tem­pos em que os va­pores da car­reira não en­travam nem saíam dos por­tos sem aque­le trí­plice ur­ro -gri­to de jú­bi­lo ao an­co­rar, puro gemi­do ao par­tir! Os anti­gos il­héus choravam o pro­scrito tiro de peça do In­su­lano e do Açor... Eu choro o sus­piro da sereia do San Miguel!... Já lá diz Fer­nan­do Pes­soa (que tin­ha as­cendên­cia ter­ceirense e veio de visi­ta a An­gra): 

  Oh mar, quan­to do teu sal 

  São lá­gri­mas de Por­tu­gal! 

  Mar­cadas as pas­sagens na agên­cia co­mo se fos­se para a Améri­ca (com número de bil­hete de iden­ti­dade, fil­iação, profis­são, es­ta­do e sinais par­tic­ulares), con­ta­mos uma ho­ra de atra­so no cais, de­baixo de um sol ar­dente. Em­bar­cam ao mes­mo tem­po, mas num bar­co do Pi­co, al­guns sac­er­dotes que vier­am à sede da dio­cese, aos ex­er­cí­cios es­pir­itu­ais. Re­con­heço di­fi­cil­mente no azu­la­do das bar­bas feitas e no al­va­dio dos casacos de Verão al­guns anti­gos com­pan­heiros de es­tu­do, do tem­po em que os sem­inar­is­tas de An­gra fazi­am os seus preparatórios no liceu. E, as­sim, o tem­po começa a ter uma con­sistên­cia físi­ca, fei­ta de bran­cas, de voltas aper­tadas, de cur­va ab­dom­inal... Do vel­ho e sim­páti­co ran­cho ne­gro das es­cadas de São Fran­cis­co já saíram al­guns mor­tos, dezenas de páro­cos, um arce­bis­po e pa­tri­ar­ca... Domine, quid me vis facere? Por ago­ra, tomar a lan­cha do Cha­lan­dra e abor­dar ao re­bo­cador! ...

  E aqui começa, meus sen­hores, a mais bela ro­ta transoceâni­ca que se tem feito no mun­do! E porque não?! Es­tá ali o con­vés, de bor­da a bor­da; a casa de nave­gação com as «car­tas» pre­cisas; um quad­rante à Car­dan; um ti­mo­neiro e um pi­lo­to. Es­tá ali o mar il­héu com o seu azul de ve­lu­do, a cer­tas ho­ras e costas o seu ro­lo man­so e plúm­beo... a out­ras a sua va­ga verde salpi­ca­da de cristas bran­cas. E es­tão ali ao longe as primeiras il­has visíveis, seus am­plos dor­sos cinzen­tos ou verde-​verdete ... o per­fil tes­taru­do das suas falésias a pique. 

  Um ami­go geó­grafo, ar­rib­ado co­mo eu aqui à pla­ga in­su­lana, nos­sa mãe e madrin­ha, ob­ser­va-​me que es­tas rochas a pru­mo, co­mo que par­tidas a cute­lo, de­vem ter re­sul­ta­do de desaba­men­tos pro­gres­sivos, de­vi­dos à sapa con­stante e pa­ciente do mar. Noutro pon­to, porém, as costas ap­re­sen­tam-​se lisas e arredondadas da erupção. Co­bre-​as uma pastagem rente e den­sa, que toma do mar e do céu, al­ter­na­ti­va­mente, uma das qua­tro cores do ex­tremo do es­pec­tro. 

  E, neste mun­do da som­bra, da ve­latu­ra e da penum­bra, va­mos vo­gan­do a al­guns nós, coste­an­do ain­da a Ter­ceira 