na sua or­la su­doeste. Di­go um ín­ti­mo adeus à cur­va do Fanal, à torre de São Ma­teus da Cal­heta, às pou­cas araucárias que deste la­do da il­ha ata­la­iam as ro­tas de oeste. Pas­sa­dos os primeiros três ou qua­tro quilómet­ros a oeste de An­gra, vai-​se to­da a graça e beleza do habi­tat dos arredores. Cam­in­ho de Baixo e S. Car­los são nú­cleos de bair­ros res­iden­ci­ais do ter­mo de An­gra, cu­jas quin­tas e casas ri­val­izam, em re­gra, com o que há de mais re­quin­ta­do no ur­ban­is­mo de arra­balde em qual­quer parte do mun­do. 

  Ago­ra, porém, o nos­so es­ti­bor­do só mostra um litoral in­acessív­el, não muito abrup­to, fra­ca­mente recor­ta­do. A vinte met­ros de «rocha» já a il­ha tem um as­pec­to fran­ca­mente ru­ral, ou (mel­hor) pas­to­ril. Um cordão de casas bran­cas, cuida­dosa­mente ca­iadas, vai acu­san­do os me­an­dros da estra­da litoral. De cin­co em cin­co quilómet­ros er­gue-​se a igre­ja rús­ti­ca. As fregue­sias, aqui, são des­ig­nadas pe­lo nome do or­ago e pe­lo número de ribeiras que as sep­aram da cidade: Nos­sa Sen­ho­ra do Pi­lar das Cin­co Ribeiras, San­ta Bár­bara das Nove Ribeiras, S. Jorge das Doze Ribeiras. Mas há out­ros lu­gares cu­ja to­ponímia acusa ess­es teóri­cos cur­sos de água que servi­ram à «tri­an­gu­lação» dos primeiros topó­grafos da il­ha: Duas Ribeiras, Sete Ribeiras, Car­toze Ribeiras ... (O que vul­gar­mente se abre­via em: as Duas, as Sete, as Catorze ... ) 

  Ribeiras!...Quem ou­ve is­to vê água a cor­rer, lavadeiras a lavar, amores hidro­grá­fi­cos à margem... Na­da dis­so! Tiran­do a Ribeira dos Moin­hos de An­gra, a da Cruz da Vi­la e a da Agual­va (tu­do mós), os lu­gares da Ter­ceira com esse nome são sim­ples sul­cos de pe­dra que de­scem das en­costas cen­trais, onde os riscos som­brios de uma veg­etação mais den­sa acusam o fio de água. São ce­dros anões, hortên­sias, co­quil­hos, roqueiras, al­gum reben­to de robinia pseu­do-​aca­cia, que con­seguem viçar a al­guns quilómet­ros das aldeias e da rocha do mal'. Resse­quidas de Verão, e até de In­ver­no, só al­gum ci­clone ou­toniço ou as chu­vas con­stantes da Pri­mav­era as fazem reben­tar. Ar­ras­tam en­tão con­si­go ce­pos ar­ran­ca­dos e tron­cos, pedaços de al­fa­ias agrí­co­las e até al­gu­ma rês sur­preen­di­da nos pas­tos a be­ber. 

  Já a pon­ta da Ser­re­ta nos lem­bra que a cos­ta da Ter­ceira es­tá no fim e que começamos a nave­gar desabri­ga­dos dela. A il­ha Gra­ciosa de­sen­ha-​se ao longe co­mo dois bo­ca­dos de pão mal par­tidos. E lo­go es­tas ex­ten­sões in­su­lares, que de ter­ra pare­cem tão cur­tas, vão co­bran­do no mar a re­al­idade das suas mil­has e a noção de peri­go que, a bor­do de pe­que­nas tonela­gens, de um mo­men­to para o out­ro po­dem ter. Já o navieco vi­bra ã nor­ta­da que se lev­an­ta, e as suas bor­dadas ten­tam al­ter­nada­mente a flor de água. Mas por­ta-​se bem. Tem aparente­mente tu­do o que com­por­ta um pa­que­te: con­vés, ca­marotes, be­lich­es, porão, casa de máquinas, etc. Na casa de nave­gação o jovem capitão do Fur­nas, em camiso­la de rede, co­man­da: 

  -Mais es­ti­bor­do! 

  Di­go adeus à cal­heta longín­qua onde sei que são os Bis­coitos e onde ain­da há poucos dias saudei as com­pan­has baleeiras de um ar­mador meu ami­go. Evo­co o per­fil das canoas varadas, el­egan­tís­si­mas, que pare­cem não ter proa nem ré, tão in­difer­entes e velozes são os seus topos de quil­ha. Que lin­das em­bar­cações, cheias de pre­cisão co­mo reló­gios, com o la­gai­ete pron­to a re­ce­ber as voltas da lin­ha en­ro­la­da sem co­ca nas sel­has, os arpões a pos­tos, as paz­in­has prontas a sub­sti­tuir os re­mos rui­dosos à aprox­imação do levi­atã. 

  Navego