 ago­ra ca­da vez mais no ru­mo dos mares do cachalote, nu­ma em­bar­cação condigna destes canais e destes por­tos, própria para me­ter a proa en­tre um il­héu e a ter­ra ou en­tre um pa­que­te e um il­héu. Não en­joo, mas perce­bo co­mo um es­tô­ma­go se pode vi­rar do aves­so nestes tom­bos. As por­tas do ca­marote batem: as caçaro­las da co­zin­ha an­dam num polvaró; um ga­lo, en­riça­do, bate as asas à popa. Não ten­ho me­do (nem é mar para is­so), mas sin­to o coração vaga­mente cer­ra­do e sali­no. 

  Os bi­ol­ogis­tas com­param o es­ta­do in­te­ri­or das nos­sas vísceras à im­plan­tação de an­imál­cu­los num meio sal­ga­do e tépi­do feito de lin­fa e de sangue. Sin­to um tra­vo gos­toso na bo­ca, que não sei bem se é da água sal­ga­da ou do meu próprio sangue. Um vel­hin­ho sim­páti­co e ven­eráv­el, práti­co da Pra­ia da Gra­ciosa e tio de um ami­go meu frater­no, mar­ca o lu­gar pre­ciso ao tran­sitório fer­ro da min­ha nave­gação. 

  IX. Da Gra­ciosa ao Fa­ial 

  14 de Novem­bro de 1946 

  A vi­agem vai no fim e o coração dá sinal…Não mais il­has à vista e canais de través! Adeus, céus de bor­ral­ho, mares de met­al, lavas ne­gras! Adeus serenidade, sossego maciço, paz cinzen­ta! E muitas out­ras coisas que não me atre­vo a diz­er, tais co­mo a ausên­cia, e o Es­cam­padoiro ou o Pi­co da Bagaci­na, con­sid­er­ados lu­gares sagra­dos. 

  Meto porém na or­dem a matil­ha dos meus sen­ti­men­tos de jor­na­da e en­tro pacata­mente no re­bo­cador de al­to mar. Co­mo disse, o cais es­ta­va cheio de gente, prin­ci­pal­mente de bati­nas. O clero de oeste recol­hia dos ex­er­cí­cios es­pir­itu­ais. Mas eu não quis aque­le bar­co-​de-​bo­ca-​aber­ta que pas­ma ali na baía, e que, em meia dúzia de ho­ras, porá na pon­ta do Pi­co aque­les re­speitáveis sac­er­dotes. Eu vim cá pe­lo largo, coste­an­do a Ter­ceira se­mea­da de casario bran­co, de cer­ra­dos tor­ra­dos pe­lo Verão, de bois e de va­cas que enchem os bebedoiros e os cam­in­hos. 

  Do­bra­da a pon­ta da Ser­re­ta, em duas ou três ho­ras chegare­mos a por­to de sal­va­men­to. A primeira eta­pa é a Gra­ciosa, e já sin­to na proa do bar­co o pal­pite dos re­mos do práti­co, di­re­ito ao an­co­radoiro. Se Chateaubriand tor­nasse aqui com Tul­loch, se­ria es­per­ado pe­lo sen­hor capitão-​mor de San­ta Cruz far­da­do de verde-​sal­sa; iria com­er ao con­ven­to dos fran­cis­canos, ou coisa as­sim. E o seu faro im­placáv­el de­nun­cia­ria out­ra vez o cheiro a seara in­su­lana; os seus ol­hos ex­ac­tos mar­cari­am a man­cha es­bran­quiça­da das nar­ce­jas e o ol­ho pi­ca­do dos fi­gos ... Os tem­pos, porém, mu­daram muito des­de que o vis­conde por aqui pas­sou, di­re­ito ao Niá­gara e ao Mis­sis­sípi. 

  Ago­ra a Gra­ciosa não tem capitães-​mores nem frades: é es­ta il­ha hos­pi­taleira, re­ti­ra­da, be­nigna, que vin­di­ma o verdel­ho mais doura­do do mun­do e ex­plo­ra as águas ter­mais mais ob­scuras e ben­eméri­tas da car­ta hidrológ­ica de Por­tu­gal. Cara­pa­cho -boni­to nome! De bor­do mostram-​me a de­do o fio de casas da fregue­sia da Luz, e lo­go aque­la ed­ifi­cação mais com­pri­da, que deve ser o bal­neário. Tu­do pela­do e amare­la­do, a il­ha ao longe é por as­sim diz­er in­óspi­ta. To­das es­tas nos­sas il­has de Baixo es­con­dem as suas belezas para que lhas não co­bicem. Al­gu­mas têm o mais be­lo de si na en­tran­ha, co­mo uma mãe que demo­ra na serenidade do re­gaço a aparição do seu amor: tal é es­ta Gra­ciosa com a sua fur­na imen­sa, cat­edral de lavas ín­vias. Mais uma vez fal­ho a de­sci­da prodi­giosa (dizem...) à fur­na que o príncipe Al­ber­to de Mó­na­co e out­ros vis­itantes de crédi­to tan­to têm cel­ebra­do, e