 que é (parece...) uma mar­avil­ha de som­bras, de es­ta­lac­tites, de es­tru­turas tostadas e bru­tais. Uns gabam-​lhe o cânone dos pi­lares mon­stru­osos, out­ros o in­definido e o ter­rív­el do que se adi­vin­ha no oco, para lá dos bo­ca­dos acessíveis.

  En­fim: não vou à fur­na da Gra­ciosa! Fal­ho sem­pre o mel­hor ... Mas, pela min­ha vel­ha e paca­ta fur­na das Qua­tro Ribeiras, pela da Madre de Deus e por al­guns al­gares quase domés­ti­cos da Ter­ceira, sou ca­paz de dar uma ideia dos prodí­gios do chão ro­to e se­cre­to das Il­has. Uma at­mos­fera de crip­ta, vaga­mente enx­ofra­da, en­volve de penum­bra quem lá en­tra. Es­ta­mos em ger­al sob uma abóba­da de fo­go que o tem­po pet­ri­fi­cou, e em cima de bi­cos de pe­dras que, per­cu­ti­das, deitam lume de si. Umas são rox­as e pre­tas, out­ras lilases e cinzen­tas -to­das es­curas e bi­cadas co­mo re­buça­dos em «pon­to». Ao fun­do treme a luz de es­mer­al­da das aven­cas. Cheira a húmi­do e a mor­to. 

  Que mun­do é este que se nos rev­ela nestes pedações vul­câni­cos for­ra­dos de um so­lo ma­gro e cínzeo? Que im­pressão é es­ta de aparta­men­to, de al­fa e ómega da vi­da ... aqui­escên­cia fi­nal e paz para se ficar mes­mo ... ? 

  A noite fe­chou a Gra­ciosa no seu man­to es­tre­la­do; fos­cou to­das as som­bras e acen­deu as luzes da ceia nas cas­in­has. Na vi­la avul­tam as moradas no­bres, e qual­quer am­bição de de­safo­go tem nat­ural saí­da na pon­ta al­ti­va e em cruz das araucárias. Deixo-​as aqui, gi­gan­tescas, em San­ta Cruz da Gra­ciosa; deix­ei-​as lá, mon­umen­tais, na min­ha pá­tria Ter­ceira; vou en­con­trá-​las de to­dos os taman­hos, e mais nu­merosas que em nen­hures, na Hor­ta da min­ha ado­lescên­cia. 

  O re­bo­cador le­va a ân­co­ra às onze da noite (ho­ra de Green­wich), e eu tam­bém le­vo (se é que não levan­to ibi­dem... ) o ruí­do baço da proa do gasoli­na da par­ti­da den­tro do meu coração. O que a gente con­segue cá me­ter! Quis­era ver a cos­ta de São Jorge à me­di­da que lá chegásse­mos. Mas o homem põe, Deus dis­põe e os ru­mos saíram-​me tro­ca­dos, as ho­ras to­das caldeadas... Pas­sare­mos a noite bor­dan­do a cos­ta abrup­ta da il­ha, sem ver na­da senão o pal­mo adi­ante do nar­iz re­cep­ti­vo aos bafos de bor­do e fe­liz­mente firme ao en­joo. Bela cas­ca de noz com có­mo­dos para tu­do! -ca­marote a dois be­lich­es, sandes chiques, cerve­ja desrol­ha­da por um groom! Mun­do abre­vi­ado, co­mo nos grandes pa­que­tes -aqui só fal­ta o mostruário da fau­na, co­mo na Ar­ca de Noé. Para Ar­ca de Noé, porém -bar­co do Pi­co. Aí, sim, que o por­co dis­pu­ta o pal­mo de cober­ta ao pas­sageiro; a gal­in­ha cacare­ja ao ou­vi­do do en­joa­do; Noé, de ar­reca­da de oiro e bar­ba de rabo de leque, ad­min­is­tra a justiça e aguen­ta a cana do leme.

  Às seis ho­ras fun­deamos na vi­la da Cal­heta. E, nes­ta man­hã bú­cia e chu­vis­ca­da, em que não apetece de­sem­bar­car mas é con­so­lador ver ter­ra através do cen­dal do agua­ceiro, mal sabe­mos nós que a po­bre Cal­heta es­tá em vésperas de sen­tir os seus tel­ha­dos pe­lo ar, ter o cais­in­ho ar­rom­ba­do, o varadoiro de­struí­do e as ca­sitas es­bor­ral­hadas. Al­gu­mas pes­soas amáveis, saben­do-​me au­tor de um livro que tem al­go que ver com estes braços de mar e es­tas il­has por onde me ar­ras­to ago­ra, grace­jam: «Mau tem­po no canal…hem?» Não. Ape­nas, co­mo se diz no Pi­co e à mo­da da Améri­ca: tem­po rofe ... 

  Antes de par­tir, alertei os pos­tos, tele­grafei a eles to­dos: Si­go in­specção por­tos Canal. «Eles» -são os quarenta maiores das il­has de Baixo, os ami­gos vel­hos do tem­po do liceu e do tem­po de Coim­bra, dois dos quais me con­vi­dam