o tem o clás­si­co cas­tan­heiro que da­va som­bra a quem quer. Já não con­heci a sen­ho­ra D. Cristi­na, mas li-​lhe as Flo­res de Al­ma e ain­da pude ou­vir a out­ra român­ti­ca ir­mã de Manuel de Ar­ria­ga, a sen­ho­ra D. Mar­iana, falar do tem­po aboli­do ... 

  O Fa­ial é dis­cre­to e fem­ini­no. As mul­heres do cam­po deix­am o sa­cho ou a forquil­ha para pe­garem na ag­ul­ha do cri­vo ou na farpa do croché. Ali bor­da-​se a fio de pal­ha em tule ne­gro, mais leve que uma nu­vem; fio de pal­ha de tri­go: de maneira que uma man­til­ha ou uma blusa pare­cem ter lume ace­so. Os chapéus de pal­ha dos Ce­dros são mag­ní­fi­cos: há a trança de cin­co per­nas, que já vem doba­da em ro­los para cer­tas modis­tas al­fac­in­has; há os grandes abeiros do Pi­co, que as ra­parigu­in­has põem com uma fi­ta en­car­na­da (e à min­ha fil­ha fi­ca bem). E fazem-​se flo­res de es­ca­ma, pren­das de mi­olo de figueira, toal­has de pa­pel recor­ta­do que pare­cem de es­puma. Fui a casa de umas sen­ho­ras que tra­bal­ham para ex­por­tar. Que bom gos­to, que com­pos­tu­ra anti­ga nos móveis e nas maneiras!, que so­bra­dos aque­les!, que feições de família aque­las, que rompem o nim­bo dos da­guer­reóti­pos e das fo­tografias vel­has co­mo bor­bo­le­tas sain­do dos ca­su­los de um mun­do que mor­reu! 

  Este meu roteiro não pres­ta para na­da, se não é o fio de saudade que o sus­ten­ta e que ten­to lançar ao leitor co­mo um cabo a uma nau de­sar­vo­ra­da. Es­ta­mos cansa­dos deste sin­grar sem fim de il­ha em il­ha: eu, o leitor, as próprias il­has que são a sub­stân­cia do roteiro. Qual­quer dia acabo com is­to e pon­ho-​me a falar de out­ra coisa. En­tre­tan­to, co­mo diz Mon­ther­land: En­core un in­stant de bon­heur... 

  X. A Cidade do Canal 

  11 de Out­ubro de 1951

  Prometi uma vez re­tratar as sete cidades ou bur­gos em que VIVI por mais tem­po, e afi­nal não pas­sei de umas duas. Ten­do começa­do pela ter­ra onde nasci, es­que­ci-​me por lá em min­udên­cias saudosas. 

  Os nat­urais dos sí­tios são co­mo os crim­inosos: voltam ao lu­gar do deli­to. Não que eu sub­scre­va àqui­lo do po­eta que diz que sem­pre o pi­or mal é ter nasci­do. O mal ou a cul­pa de Adão remiu-​a Cristo com sangue -e Ele próprio se lus­trou nas águas do bap­tismo, ain­da que o San­to Es­píri­to o ten­ha ger­ado sem mácu­la. Fo­ra dis­so, não há mal al­gum em cá vir. Se o mal ex­iste in­de­pen­dente da con­sciên­cia que o apreende e do coração que lhe dá cam­po, tal co­mo o bem im­passív­el. os home­ns de carne e os­so os vivem e pade­cem -pois que o bem pro­ced­er nasce da paixão lev­an­ta­da. Sem suor do ros­to, sem alen­to e out­ros sinais de ex­istên­cia, co­mo queixar-​nos da vi­da? Is­to de mun­do é ir­recusáv­el. Só há perdão para a re­pul­sa do mun­do no ane­lo da San­ta Cidade. 

  Ora, as min­has cidades não se­ri­am san­tas, de­cer­to que nem Jerusalém nem Ro­ma me cou­ber­am –, mas er­am as mel­hores que dar-​se po­di­am a um vi­vo de­sen­raiza­do. O mais im­por­tante nas memórias de homem um pouco pere­gri­no é esse pon­to dori­do que o coração acusa quan­do se lem­bra do trans­plante. Par­tir, ar­ran­car de um lu­gar, é pa­gar o preço da vi­agem, que sem­pre nos sai da pele. Mor­ei em ter­ras es­tran­has por lar­gos lap­sos de tem­po e, ape­sar de as deixar para voltar às nos­sas, es­treme­cia sem­pre. Va­mo-​nos se­me­an­do pe­lo mun­do co­mo um pun­hado de tri­go que só nu­ma úni­ca leira daria seara que se visse. E estes se­meadores saltea­dos, cus­ta-​lh­es muito a cei­far… «Ter­ra quan­ta ve­jas» -é o lema do morar e pos­suir. 

  Os pés de bar­ro que tor­nam o recor­dar vul­neráv­el são o «eu fiz», «eu acon­te­ci», forçosos na