 recor­dação. Mas já me de­sen­ganei; pois, co­mo ofi­cial de es­cr­ev­er e de falar, ten­ho de me agar­rar ao pronome an­tipáti­co e os­ten­si­vo: «eu», «eu» a tor­to e a di­re­ito... Co­mo o bom carpin­teiro não larga a plaina da mão, o es­critor, mais que a pe­na ou o tecla­do da máquina de es­cr­ev­er, não pode largar o «eu». Que me ar­ran­can mi yo! -gosta­va Un­amuno de gri­tar, creio que com Michelet. A primeira pes­soa do plu­ral, al­iás, tam­bém não fi­ca bem a quem não apas­cente ovel­has de redil hu­mano. Oh!, o em­prego dos pronomes: a eter­na história de O Vel­ho, o Ra­paz e o Bur­ro... 

  Mas dizia eu que o ar­ranque do sí­tio onde vive­mos re­sume o pó da jor­na­da, fá-​lo tra­ga­do e su­fo­cante co­mo nen­hu­ma out­ra cur­va do cam­in­ho. Lem­bro as pe­que­nas tor­res das igre­jas e da Câ­mara da Pra­ia, na il­ha Ter­ceira, que, deix­adas ao al­to da Boa Vista, me pare­ci­am sepul­tar nos seus al­icerces de tu­fo as casas dos meus e dos viz­in­hos, a es­co­la, as ruas do trân­si­to e da ganda­ia, o cais e o are­al dos son­hos. Eu chega­va a An­gra e, pouco a pouco, out­ras tor­res -maiores e tão du­ra­mente históri­cas, que duas de­las, as da igre­ja do Caste­lo, campeavam en­tre tor­reões que havi­am si­do es­trangeiros, as­se­stando bo­cas de fo­go so­bre os nat­urais da il­ha in­erme -começavam a or­ga­ni­zar em torno de mim a in­tim­idade, a con­fi­ança, e dali a bem pouco o apego. Al­guns anos bas­taram para me nat­uralizar ali. E con­fes­so até que, ape­sar de ter feito o meu trans­plante num pal­mo re­don­do de il­ha, nun­ca uma acli­mação me cus­tou mais do que es­sa. 

  As raízes en­tão vi­olen­tadas er­am as mais tenazes, as primeiras. De­pois, lenta­mente, a plan­ta hu­mana vai-​se acos­tu­man­do a que o des­ti­no, que é jar­dineiro, a «dispon­ha» -e aca­ba por ter o seu sis­tema de im­plante co­mo que em es­ta­do de alarme. Umas go­tas de água de re­ga chegam para lhe tornar al­gum viço.

  Mas dói, cus­ta sem­pre... Recor­do-​me mes­mo de que a min­ha se­gun­da trans­plan­tação, a de uma il­ha para out­ra, foi que me deu o tema para re­viv­er a ter­ceira -en­tão já um salto grave, quase transoceâni­co, das il­has para es­tas nos­sas por­tugue­sas par­agens, a que nós, os il­héus, chamamos «o Con­ti­nente», de um pon­to de vista telúri­co que deve ter seu sen­ti­do em etnop­si­colo­gia. E é cu­rioso que a evo­cação da larga­da de­ci­si­va ten­ha surgi­do noutro transe cru­cial de fil­ho pródi­go: a min­ha primeira fix­ação no es­trangeiro. 

  A sem­pre-​mes­ma visão da ter­ra deix­ada, em panora­ma, pare­cia levar, com o aparta­men­to, a carne do saudoso aderi­da! Era out­ra vez to­da a plan­ta ar­ran­ca­da que se re­traía e sen­tia mur­char pouco a pouco. Al­go as­sim co­mo es­tas mod­estas largadas deve ser o pas­so do rio de Caronte. A uma per­spec­ti­va ne­gra, de eclipse e de fim de mun­do, suced­erá, me­di­ante a tran­sição ad­equa­da, a adesão grad­ual à per­spec­ti­va no­va que nos vai con­vi­dan­do e ab­sorven­do. Não cus­ta es­tar ... ser ob­jec­to de cen­so de­mográ­fi­co, de recol­her e de alvo­ra­da, de al­moço, de ses­ta e ceia. O que dói é torn­ar­mo-​nos de re­pente su­jeitos do mun­do con­clu­so e ausente, juízes na própria causa subita­mente pro­ces­sa­da ali di­ante de nós... naque­las casas do amor e do hábito que fo­gem ... que se an­in­ham ao longe e é em nós que se com­primem. 

  A Hor­ta de 1918, a seis meses do armistí­cio e da paz de Ver­sal­hes, era mais ou menos o que ho­je é, ape­sar do ter­re­mo­to que em 1926 lhe deitou metade das casas abaixo. Era uma cidadez­in­ha bran­ca, dis­pos­ta ao lon­go de duas ruas de trân­si­to -das quais a Rua do Mar, a mais livre de casas, corre p