ar­alela à do­ca. O resto do roteiro corre em an­fiteatro e pende so­bre es­sas artérias mes­tras, al­in­han­do calçadas que con­ser­vam o carác­ter anti­go e sub­ur­bano da vi­la que o duque de Ávi­la, por lá ter nasci­do e medra­do, pro­moveu a cidade ex­plo­ran­do de­cer­to as boas recor­dações que o rei D. Luís con­ser­va­va de uma anti­ga es­cala dos seus tem­pos de capitão-​de-​corve­ta. 

  Ob­scure­ci­da em tra­to por An­gra e Pon­ta Del­ga­da -a cap­ital políti­ca e a cap­ital económi­ca dos Açores -, a Hor­ta fi­cou sec­ular­mente fiel ao paca­to des­ti­no de nin­ho de povoa­men­to que lhe mar­cara Jos de Huertre, o seu primeiro capitão e fun­dador fla­men­go. Mas o que a cidadez­in­ha de oeste per­dia em im­portân­cia ime­di­ata, gan­ha­va-​o co­mo nó de co­mu­ni­cações en­tre três il­has cen­trais -Fa­ial. Pi­co e São Jorge -e as duas avançadas longín­quas do ar­quipéla­go so­bre a Améri­ca. Uma dessas ata­la­ias, a il­ha das Flo­res, fo­ra em 1550 a alvís­sara que Dio­go de Teive mere­cera, na vol­ta da sua mis­te­riosa ex­pe­dição ao norte do No­vo Con­ti­nente. A out­ra, o minús­cu­lo Cor­vo, fi­cou sem­pre nim­ba­da da len­da da es­tá­tua ge­ognósi­ca de um cav­aleiro que se dizia apon­tar pro­feti­ca­mente em di­recção a noroeste. Chateaubriand deu-​lhe vo­ga uni­ver­sal nos Natchez; Mouz­in­ho da Sil­veira e Raul Brandão con­sagraram o Cor­vo co­mo um re­fú­gio de Robin­sons. Ago­ra, um jovem ro­mancista lu­so-​amer­icano, Al­fred Lewis, faz cor­rer mun­do as Flo­res sob a ten­ta­do­ra di­visa: A Min­ha Casa É Uma Il­ha. 

  De guar­da a es­tas som­bras, em frente o Pi­co aus­tero e coroa­do de nu­vens cam­biantes, a Hor­ta es­per­ou em silên­cio a ho­ra da crise mundi­al da caça da baleia, e lo­go o tráfego oceâni­co care­ci­do de carvão e de cabo­gra­mas. De antes, era um mod­estís­si­mo as­sen­to de capitães-​mores e de vin­hateiros, viven­do da hor­tal­iça e do leite dos bucóli­cos vales do Fa­ial e das mer­cado­rias trazi­das pe­los pe­quenos veleiros que lev­avam o vin­ho do Pi­co até à Inglater­ra e ao Bálti­co. Ape­nas a som­bra de Mar­tim de Be­haim, gen­ro de Huertre, com­pen­dian­do ali os da­dos se­mi-​se­cre­tos para o globo que en­gen­hou e ofer­eceu à sua pá­tria Nurem­ber­ga, pro­jec­ta­va na Hor­ta dos sécu­los XVII e XVI­II um bril­ho de chave dos mares. No fim da Grande Guer­ra fui en­con­trá-​la re­moça­da, de mail­lot e de guiga de re­ga­ta, hospedan­do gal­harda­mente navios-​es­co­las de to­dos os pavil­hões. 

  As cidades pe­que­nas e iso­ladas no Atlân­ti­co – Las Pal­mas, Bermu­das, Fun­chal, An­gra, Hor­ta -têm um per­fume sali­no e pétreo de fron­teira en­tre o son­ho e a re­al­idade. Os ven­tos do largo lev­am-​lh­es o anún­cio das or­las con­ti­nen­tais nos ban­dos de gaiv­otas e ca­gar­ros que ten­tam as gáveas lá aproadas. Os sar­gaços e as al­gas flu­tu­antes ar­ro­ja­dos às costas são co­mo que men­sagens a laço, es­tran­ha tele­grafia que os garo­tos il­héus en­ro­lam nas per­nas ao ban­harem-​se e que pare­cem de­cifrar com a mes­ma atenção e alvoroço com que guardam as gar­rafas mis­te­riosas que a maré vasa lá deixa. 

  Tu­do no périp­lo de uma il­ha alude ao pos­sív­el na dis­tân­cia. Mas a Hor­ta de 1918 já não era a sim­ples cabeça in­tra-​atlân­ti­ca que es­pera das aves mar­in­has, no topo de al­gum raro mas­tro, a boa-​no­va do mun­do. Nos seus bote­quins col­ori­dos de fras­cos de be­bidas es­quisi­tas os monossíla­bos in­gle­ses re­spon­di­am iróni­cos e benévo­los às per­gun­tas dos jovens fa­ialens­es feitas pel'O in­glês tal qual se fala. No seu relvão da do­ca vi­bra­va a bo­la dos onze in­ter­na­cionais im­pro­visa