n­con­sistên­cia de pro­jec­tos hu­manos (mas desumano é o lógi­co, o éti­co, o in­flexív­el!). Além dis­so, o va­por da car­reira ... o bo­le­tim me­te­orológi­co (grau de hu­mi­dade à sat­uração cem ... ), e o acosta­men­to de San­tos com a ban­deira de saí­da... Oiço os re­bo­cadores. 

  Mas, por ora, as cigar­ras da Beira ain­da can­tam na cal­ma. Uma bor­bo­le­ta amarela aci­den­ta a pais­agem de oli­vais que me cir­cun­da. Hes­ito di­ante do calor e da luz penin­su­lar a que me afiz. Vou? Não vou? Pe­lo sim, pe­lo não, vou colan­do os ró­tu­los nas malas e dizen­do com não sei que au­tor bem-​falante e avisa­do: «É sem­pre tem­po de recol­her a vela a uma de­silusão ... »

  II. «Agar­ra: é Il­héu!»

  15 de Setem­bro de 1948 

  As Il­has, para mim, são aque­la fi­ta de estra­da en­tre An­gra e a Pra­ia, na Ter­ceira, onde lo­go aos dez anos, co­mo tecedeira que mete uma lançadeira no­va ao tear, a vi­da me en­si­nou uma saudade e o aparta­men­to. Porque até se pode es­tar dester­ra­do a vinte quilómet­ros de casa sem se sair de um pal­mo quadra­do de il­ha -que (dizia-​mo a Coro­grafía) é «uma porção de ter­ra rodea­da de mar por to­dos os la­dos». 

  É cer­to que, seguin­do esse já melancóli­co itin­erário dos meus dez anos, quase sem­pre feito sob um bor­ral­ho de nu­vens e com as orel­has do ma­cho húmi­das do re­len­to aço­ri­ano, eu me da­va con­ta de que: ter­ra, se a tin­ha, não po­dia acabar muito longe. Seguíamos uma es­pé­cie de platafor­ma saibrenta a um ou dois quilómet­ros do mar. Trepa­da a Pre­sa do Fer­rão, à Fonte Bas­tar­da, per­cor­ríamos a lin­ha al­ta da ver­tente sul da il­ha onde as­sen­tam as prin­ci­pais povoações. Dir-​se-​ia que o homem se fo­ra cansan­do do mar, procu­ran­do silên­cio e as­sen­to no in­te­ri­or. Daí tam­bém, em montes à alen­te­jana, vi­gia­va mel­hor as cul­turas.

  À nos­sa es­quer­da fi­ca­va uma lin­ha de povoa­dos mais po­bres, mas mais anti­gos: o Por­to Mar­tim, com o 'Seu Can­to da Câ­mara, onde parece se jun­tara a primeira vere­ança mu­nic­ipal daque­le pen­has­co de Cristo; a Ribeira Se­ca de Baixo e a de Cima, onde os Anais da il­ha davam co­mo nasci­do o primeiro fil­ho dela; e, en­fim, com li­cença de al­guns capri­chos e voltas daqui­lo que por lá se chama a rocha do mar -o Por­to Judeu de Baixo (que pe­lo nome não per­ca!) e cu­ja atlân­ti­ca ju­di­aria um nin­ho de casas al­vas e de por­tas es­can­car­adas ime­di­ata­mente des­men­tia. 

  Es­sa primeira lin­ha de fo­gos da il­ha Ter­ceira pare­cia-​me a raiz daqui­lo, daque­la es­pé­cie de inchume em­bor­ral­ha­do que em a ter­ra dos nos­sos, mis­te­riosa e vel­ha quan­to o quisessem os geól­ogos, mas no­va para o bi­cho homem, que se im­plan­tou tarde e a más ho­ras ali. Ter­ra re­moça­da, de história re­cente: ter­ra que as próprias en­tran­has, sob a for­ma de sis­mos e erupções, se davam ao luxo de re­volver e re­mod­elar, ao menos de sécu­lo em sécu­lo. Ali nascíamos, ali vivíamos -ali es­tá­va­mos. E «es­tar»  é muito mais ver­bo para il­héu do que «viv­er». 

  Sem­pre que, já cresci­dos, nos chegá­va­mos a um cabeço, co­mo o do Pi­co do Capitão ou o da Fonte das Amor­eiras, e de­sco­bríamos, não o aro da il­ha, que esse só se mostra da ser­ra de San­ta Bár­bara, mas um la­do in­teiro dela, um flan­co, sen­tíamos o que há de vul­neráv­el e frágil em ser-​se il­ha, e, com muito mais forte razão, em ser-​se il­héu. Os con­ti­nen­tais, sem­pre um pouco ma­lig­nos connosco, bem davam a im­agem do nos­so es­tre­ita­men­to neste mun­do, dizen­do: «Vocês, quan­do acor­dam, não es­ten­dem as per­nas, com me­do de que o mar vos mol­he as pon­tas dos pés…»

  Ora, se is­to não é fisi­ca­me