dos. 

  De­pois, a cidade re­caía no seu morno e in­trínseco silên­cio; volta­va-​se para o Pi­co so­bran­ceiro; es­teia­va-​se na dúzia de araucárias que, à fal­ta de tor­res im­po­nentes, lhe acastelavam o vul­to es­pel­ha­do nas águas do canal. O sino da igre­ja dos Je­suí­tas da­va as ho­ras pau­sadas. A couraça do Vas­co da Gama, co­man­da­do por um ofi­cial da es­co­la de Mouz­in­ho -Cori­olano da Cos­ta -, re­fazia-​se a tin­ta cinzen­ta, abri­ga­da na do­ca. 

  Dois ou três meses bas­tam para cri­ar en­tre um forasteiro e o seu efémero exílio uma aco­modação ra­zoáv­el. As raízes cor­tadas longe pegam per­to. Há lo­go ra­maria no­va, ami­gos que se ad­mi­ram de nos con­hecer há tão pouco, ruas que nos pare­cem re­boar de pas­sadas que teríamos ou­vi­do no berço. O ac­er­to não vem lo­go; o tem­po decor­ri­do no exílio é ret­ro­spec­ti­vo, re­mi­tente, mais con­sagra­do ao per­di­do do que ao que se aca­ba de gan­har. Mas vem a ho­ra do adeus, e tu­do o que pare­cia vi­olên­cia fei­ta à nos­sa tendên­cia imóv­el, que ref­ere a paz e a fe­li­ci­dade ao primeiro lu­gar que nos cal­hou, tor­na-​se «o mel­hor tem­po», o ter­ritório da lem­brança que os faróis da noite vão lenta­mente douran­do e lo­go reme­tendo ao es­curo . .. Mau Tem­po no Canal. 

  XI. In­útil Farol de Noite ... 

  26 de Fevereiro de 1947 

  Com mais umas duas sin­graduras eis-​me no Pi­co, il­ha sagra­da. Os seus es­porões de la­va pare­cem dar as­sen­to e es­tru­tu­ra ao ar­quipéla­go in­teiro. Já dizia Chateaubriand, que pas­sou por lá em moço: In­útil farol de noite, sinal sem teste­munha de dia. E não é a melan­co­lia e o es­ti­lo do jovem vis­conde que aqui falam. Na ver­dade, aproan­do das Ve­las (São Jorge) à Hor­ta (Fa­ial), a im­pressão que ten­ho, con­tor­nan­do o Pi­co no re­bo­cador de al­to mar que me em­bala bem mais do que me le­va, é que este bom mon­stro mar­in­ho feito de nu­vens e de es­córias é um puro padrão de utopia -au­ten­ti­ca­mente um mar­co lev­an­ta­do em nen­hures, co­mo se Plutão quisesse demon­strar a per­fei­ta gra­tu­iti­dade dos seus movi­men­tos e cri­ações. 

  Eu, o capitão do Fur­nas, a min­ha pe­que­na com­pan­heira, mais qua­tro ou cin­co pas­sageiros, os poucos trip­ulantes da nau e o ga­lo de bor­do temos, na ver­dade, ol­hos na cara; e to­dos, ex­cep­to o ga­lo, damos fé deste grande pão de la­va aqui na bo­ca do mar. Mas a grandeza deste cenário marí­ti­mo é tal que pe­dia a con­stante vig­ilân­cia e bur­bur­in­ho de um por­to, de um gol­fo, de um canal. En­tre o Pi­co e São Jorge o Atlân­ti­co faz a mes­ma in­vestidu­ra que em cer­to pon­to da Man­cha -muito mais, por ex­em­plo, em lança­men­to e im­ponên­cia das es­tru­turas de ter­ra lat­erais, do que no Pas­so de Calais. 

  Mas não. Es­cusamos de es­per­ar, a um bor­do ou a out­ro, a sil­va de sinais verdes, en­car­na­dos, amare­los, que se vai com­pon­do com os pe­na­chos de fu­mo dos car­voeiros tran­sientes, de al­gum cruzador ou sim­ples tor­pedeiro da Home F1eet -em suma, dos mil e um aci­dentes próprios de uma artéria por onde pas­sa vi­da e mais vi­da hu­mana. 

  A boa faroliza­ção das costas aço­ri­anas é cer­to que já não dá to­da a força à frase do de­scon­so­la­do e no­bre au­tor das Memórias de Além-​Tú­mu­lo. Mas, lente a mais, fo­co a menos, a im­pressão dom­inante de ex­trema solidão não se des­faz. 

  Não é es­ta, porém, ain­da a min­ha en­tra­da no Pi­co. Uma coisa é sondá-​lo dos canais, bor­de­jar a sua enig­máti­ca e ob­lon­ga car­caça vul­câni­ca coroa­da a sul pe­lo monte que o nomeia, e out­ra é pen­etrá-​lo até onde ele se deixa in­ti­mar -pois sem­pre a coroa de neve do pi­co do Pi­co so­bre­pu­jará in­c