o­movív­el o atre­vi­men­to do vi­ajante, afa­stan­do-​o de si co­mo a um verme da ter­ra. 

  O Pi­co, para os civ­iliza­dos que vão di­re­itos à Hor­ta tele­grá­fi­ca e car­voeira, atinge-​se pe­lo norte, nas lanch­in­has que da cidade aproam aos il­héus da Madale­na. Este seu cais de cab­otagem (o out­ro, o cais do Pi­co, é a vi­la de S. Roque, a meio canal de São Jorge) é uma vi­laz­in­ha in­ven­ta­da por es­ta es­pé­cie de nave­gação, man­cha de casario tan­to ou menos im­por­tante que qual­quer das fregue­sias que lhe in­te­gram o con­cel­ho, as­sim ar­ti­fi­cial. E o ca­so é que, mes­mo pe­quen­ina, re­duzi­da a um largo de camione­tas e às ag­ul­has das tor­res ou­sadas de uma ma­triz cristã, a Madale­na é um dos por­tos de mar por­tugue­ses que maior movi­men­to diário de pas­sageiros reg­ista. 

  Daqui ao cais, onde me es­pera a san­ta hos­pi­tal­idade, si­go em trans­porte colec­ti­vo na mel­hor com­pan­hia do mun­do. Vão aqui bravos pi­caro­tos de to­das as condições e feitios, e al­guns fa­ialens­es que o volante, re­tendo-​se, vai dis­tribuin­do pa­tri­ar­cal­mente pe­los ca­sais e povoações de ve­raneio, que são mais ou menos to­dos e to­das que não dis­tem ex­ager­ada­mente do nó de co­mu­ni­cações com a cidade da Hor­ta. 

  Aqui nas Ban­deiras deixo lo­go uma amizade no­va que fiz em seis dias de Fa­ial. Co­mo a vi­da en­riquece e am­plia a vi­da, com não mais que deixá-​la cor­rer e deslo­car-​se um pouco! Ho­ra a ho­ra Deus mel­ho­ra. E é-​me agradáv­el ver que só por me ter en­tregue a uma ro­ta ár­dua e longín­qua co­mo es­ta das il­has atlân­ti­cas, du­ma das quais sou fil­hote, mel­hor­ei, am­pliei e variei a min­ha vi­da, sem nun­ca perder de vista os ru­mos ini­ci­ais.

  Ao lon­go destas aldeias ap­in­hadas em vol­ta da igre­ja paro­quial e de costas para a lom­bra do Pi­co sen­ti­mo-​nos em­be­ber a fun­do nes­ta na­tureza ao mes­mo tem­po so­lene e par­ca, fei­ta de monte e mar. As casas são con­struí­das a seco e de pe­dreg­ul­ho à vista. São cu­bos ne­gros que se lev­an­tam na estra­da, com seu bal­cão anexo e uma ce­vadil­ha ou es­pir­radeira em flor ao pé da por­ta. Mas a sucessão destes po­bres habitácu­los não dá na­da a im­pressão de uma pop­ulação prim­iti­va. O próprio ne­grume do casario é aten­ua­do pelas bar­ras de cal que lhe de­bru­am janelas e por­tas. 

  Sente-​se nis­to tu­do o de­do de um con­stru­tor anti­go, sem­pre o mes­mo apren­diz fiel aos ma­te­ri­ais da il­ha e à es­tri­ta tradição dos primeiros ocu­pantes. Não há pro­pri­amente al­ve­nar­ia; o can­teiro tam­bém não tem cá que faz­er. Tu­do se pas­sa en­tre o dono da casa que a en­comen­da e o tapador que a ex­ecu­ta. Nem é pre­ciso tirar a pe­dra a fo­go dos caboucos. Ela es­tá ali, pródi­ga e avul­sa, der­ra­ma­da por to­da a vel­ha área das vin­has do Pi­co, que de­ram um dos vin­hos mais gen­erosos e afama­dos do mun­do e ho­je es­tão des­graça­dos pela filox­era, pela in­cúria, pe­lo desnat­ura­do gos­to aço­ri­ano do «vin­ho de cheiro» (morangueiro ou is­abel), etc…

  Gar­rett, que de­cer­to o be­beu da frasqueira do tio, bis­po de An­gra, fa­ialense legí­ti­mo, chamou-​lhe nu­ma ode da Líri­ca de João Mín­imo «o rescen­dente Pi­co». E na ver­dade o autên­ti­co vin­ho de cheiro é este faler­no bran­co que Tibério Brasil, o meu an­fitrião do cais, pas­sa tra­bal­hos para des­en­can­tar das rarís­si­mas ade­gas da il­ha onde ain­da se lhe sabe o gos­to, o aro­ma e o ras­to. Na corte da Rús­sia be­bi­am-​no lev­ado por veleiros in­gle­ses pela via do Bálti­co. Eu fui prová-​lo pela úl­ti­ma vez, vai já para vinte anos, no Al­to da Nes­pereira, no Min­ho em casa de Raul Brandão, que os­ten­