ta­va aque­le lacre co­mo um troféu da sua pes­soal de­scober­ta das Il­has De­scon­heci­das.

  Ago­ra, queimadas as vin­has pela molés­tia, os cur­rais de la­va onde ela abraça­va o pe­dreg­ul­ho es­tão em parte cober­tos, so­bre­tu­do nes­ta ban­da do con­cel­ho da Madale­na, pelas figueiras anain­has que o pi­caro­to deixa espon­tâneas e cu­jo fi­go come, vende e des­ti­la. 

  In­sta­lo-​me no Cais por uns qua­tro dias. A vi­la é um com­pos­to de pe­quenos gru­pos de casas: o Cais, mais ribeir­in­ho; São Roque, mais in­te­ri­or, e co­man­da­do por um con­ven­to onde es­tá in­sta­la­da a Câ­mara e fun­cionam to­das as repar­tições públi­cas. Porque es­ta vi­la de São Roque, cabeça ju­di­cial da il­ha do Pi­co, é rel­ati­va­mente mod­er­na. São Roque e Madale­na são posições ge­ográ­fi­cas de lig­ação nu­ma il­ha grande e de­masi­ado per­iféri­ca na dis­tribuição do seu po­vo, sem nen­hu­ma es­pé­cie de co­mu­ni­cações transver­sais, e que por­tan­to teve de hi­er­ar­quizar os seus agre­ga­dos demóti­cos pe­lo pro­ces­so um pouco ar­ti­fi­cial de vi­las-​tes­tas. Da­da a ori­en­tação e posição rel­ati­va às il­has mais viz­in­has, as costas do canal de São Jorge e do canal do Fa­ial de­ter­mi­naram, muito de­pois da ocu­pação da il­ha, a cri­ação de pon­tos preferi­dos, nós de trá­fi­co sem a cor­re­spon­dente e necessária pre­pon­derân­cia ou su­pe­ri­or­idade ab­so­lu­ta so­bre as de­mais povoações. Só a vi­la das La­jes, cap­ita­nia e as­sen­to dos primeiros povoadores, con­ser­va no seu traça­do e na mas­sa do seu casario os sinais de uma cap­ital­idade e de­sa­pare­ci­da. 

  Era, além dis­so, a cap­ital baleeira -e a baleia ain­da é a grande fonte de riqueza da il­ha. Mas até es­sa im­portân­cia se deslo­cou para São Roque -ou mel­hor, para o Cais, que é co­mo por lá se diz. 

  Do Cais vou a São Miguel Ar­can­jo, onde pára por ora a estra­da de cir­cuito que vem des­de as La­jes, num per­cur­so su­pe­ri­or a oiten­ta quilómet­ros, e a que se deve so­mar o ra­mal La­jes-​Piedade, na pon­ta da il­ha. Fal­tam uns dezas­sete quilómet­ros ao to­do para que se pos­sa falar de um périp­lo estradís­ti­co do Pi­co. E é pre­cisa­mente esse troço, que só pode faz­er-​se a cav­alo ou de bar­co, o que me fi­ca em bran­co. Fal­ho pois San­to Amaro, o coração do Pi­co, com os seus es­taleiros de iates e as suas man­ufac­turas típi­cas. 


  Paciên­cia... Não creio, al­iás, que uma il­ha tão den­sa de cas­ti­cis­mo e de tradição nos re­serve ain­da mais sur­pre­sas e mo­tivos de es­pan­to do que os que a Piedade, as La­jes, São João, a Can­delária ou não im­por­ta que ter­ra pi­caro­ta nos dão. 

  A im­pressão dom­inante em quem visi­ta es­ta gente é a de que apor­tou a um mun­do aboli­do, onde uma civ­iliza­ção de meio milénio per­se­vera e onde uma cul­tura com ân­co­ra em Cristo e na com­pan­ha do la­go de Tiberíade os­ten­ta a mar­avil­ha da sua unidade e da sua ín­ti­ma co­erên­cia. Não é o su­per­fi­cial pitoresco que apre­ci­amos nas ter­ras mais ou menos apartadas, e que se re­solve nu­ma ou duas peças do tra­jo e em mais não sei quê de am­biên­cia. É o mi­la­gre da or­ga­ni­za­ção do tra­bal­ho e da es­tru­tu­ra so­cial ao mes­mo tem­po in­flexív­el e ex­traor­di­nar­ia­mente plás­ti­ca: o pescador não pesca ape­nas -tam­bém lavra. O lavrador não tra­bal­ha só nas ter­ras: vai ao mar. Mas tão-​pouco um lavrador do Pi­co é só is­so e pescador. Co­mo a il­ha tem pou­ca ter­ra lavra­dia, o tra­bal­ho do cam­po é com­pósi­to. Quem aman­ha, aman­ha in­difer­ente­mente a pe­que­na seara, a hor­ta, o figueiral, o po­mar, a vin­ha, o ma­to. O pi­caro­to corre da ser­ra, aonde foi 