à lenha, ao al­to mar, onde o es­pera o car­dume da baleia; e larga a lançadeira do tear, a trança da pal­ha de chapéu ou a ag­ul­ha da rede pe­lo croque da lan­cha e o re­mo da canoa. 

  Dou a vol­ta ao Pi­co ma­jestoso e es­pra­ia­do, num dia in­olvidáv­el. Um ami­go me le­va pe­lo aro de estra­da da il­ha, out­ros me dão de com­er à som­bra da mon­tan­ha, em São Ma­teus, na região das vin­has. Pas­so os «mis­térios» zonas de la­va cínzea onde mal bro­ta a urze e medra al­gum re­cente e bené­fi­co pun­hado de penis­co. Con­torno os pesqueiros sem con­ta, as pra­iaz­in­has in­óspi­tas, as pon­tas cravadas num mar san­hu­do e azul co­mo nen­hum. À es­quer­da ou à di­re­ita, na ida ou na vol­ta, o Pi­co não me deixa. São três mil met­ros de lavas acaste­ladas que ata­la­iam as grandes solidões in­su­lares onde abri os ol­hos ao mun­do. Dá que pen­sar, es­ta al­tura sev­era a que sem­pre me lem­bro de ver (da Hor­ta ou de An­gra) al­gu­ma for­ma de neve ou nu­vem agar­ra­da. Aque­le cabide de es­tratos me fez ne­fe­li­ba­ta ... Por is­so a som­bra do pai das nu­vens il­hoas cai no meu coração de vol­ta ao Cais, onde me es­pera uma Lua enorme, re­don­da e al­ta nas águas, e onde um va­go cheir­in­ho a baleia der­reti­da aten­ua, en­quan­to pas­seio nas ruas com o meu «afil­ha­do» e an­fitrião, o que há de ex­ces­si­vo e de re­mon­ta­do nes­tas recor­dações. 

  XII. En­con­tro de An­gra 

  7 de Novem­bro de 1946

  Recém-​chega­do à Ter­ceira, pas­so uns dias na Pra­ia, para ver os par­entes, e lo­go volto a An­gra, onde me in­sta­lo uma se­mana, em casa de família tam­bém. Ven­ho achar tu­do in­tac­to: a il­ha per­pet­ua­mente re­don­da e cinzen­ta no hor­izonte (ver­ifi­cação de bor­do); os montes, car­nudos e cínzeos, em­brul­ha­dos num eter­no pano de névoa; e os cam­pos, qui­etos, ago­ra da cor da pal­ha que o Verão amadure­ceu, tal­ha­dos aos quadrad­in­hos nas achadas e nos vales. 

  Mas a maior con­stân­cia (muito no­bre, leal e sem­pre con­stante chamou Gar­rett a An­gra, num de­cre­to ar­mo­ri­al que Pas­sos Manuel lhe en­comen­dou) ... a es­tri­ta fi­del­idade guarda­da ao tem­po e ao fil­ho pródi­go é a das pes­soas, a dos hábitos, a das coisas e casas. Ape­sar da avi­ação, das tropas de ata­la­ia à guer­ra, dos dez e vinte anos volvi­dos, de tu­do o mais que corre e se trans­for­ma, destes an­glo-​saxões que enx­am­eiam nas ruas da cidade e da Pra­ia o cor­po da il­ha e a sua al­ma es­tão con­cordes comi­go. Na­da aqui se al­ter­ou. 

  Toma­do de uma es­pé­cie de me­do de que tu­do is­to, tão queri­do e ex­ac­to, se­ja fal­so, levan­to-​me muito ce­do e vou por aí ver­ificar. Mo­ro ao la­do da Sé. Na casa sossega­da, imen­sa para as qua­tro pes­soas que so­mos, os pas­sos têm uma in­tim­idade pro­fun­da; mes­mo com ca­da qual nu­ma pon­ta da casa e a con­tas com os seus cuida­dos, são pas­sos que aprox­imam. Um ami­go médi­co que cá vem c1inicar chama a is­to -o Con­ven­to! É aqui, sim, que pos­so rep­re­sen­tar o dra­ma do fil­ho pródi­go com guar­da-​roupa e cenário: Eleázaro ro­to e fam­into, in­ton­so (cor­to o ca­be­lo na bar­bearia ao la­do, onde o cor­ta­va há vinte anos), sor­rindo só quan­do se avis­ta­va o tel­ha­do e o fu­mo da cham­iné. E, se não há aqui o pai com a sua bar­ba e a fala grave, no suave re­proche do re­gres­so, há quem o ten­ha tão vi­vo e pre­sente co­mo eu mes­mo -mais, até, pois mo evo­cam com as suas feições e di­tos de meni­no, as suas predilecções e sin­gu­lar­idades. As­sim rea­cli­mata­do à at­mos­fera domés­ti­ca, res­ta-​me ver se a out­ra me deixa res­pi­rar um pouco... 

  Na rua, tu­do idên­ti­co. As calçadas têm a mes­ma ni­tidez des­im­pe­di­da de out­ro­ra. Acor