dam de­va­gar, ao bater da ga­locha matuti­na do cocheiro que ain­da dá água à besta. Só ago­ra não há trens de praça, e por­tan­to quase não há muares nem cav­al­os de tiro. 

  Si­go maquinal­mente o traça­do ur­bano to­do: primeiro um bair­ro, de­pois out­ro, e out­ro. Duas ou três man­hãs chegam para este re­con­hec­imen­to piedoso. Primeiro, S. Pe­dro, que ol­ha a oeste, que me acabou de cri­ar e aju­dou a crescer o coração. O Al­to das Co­vas de­sco­bre to­da a ex­ten­são res­iden­cial dos arra­baldes de An­gra, e, para lá das duas ou três araucárias gi­gan­tescas que tor­reiam a saí­da da cidade, a ne­gaça de uma il­ha ao longe, que espre­ita por trás de out­ra il­ha: é o cone do Pi­co, bar­ra­do pela faixa gris e lilás de S. Jorge. Umas vezes vê-​se muito bem aque­le chapéu de neves e de nu­vens e o seu formidáv­el an­teparo; out­ras vezes é tu­do du­vi­doso, fos­co e fal­so. A il­ha é a nu­vem ou a nu­vem a il­ha? Ver­emos ... 

  Mas já o bair­ro se deixou pen­etrar dos meus pas­sos e me mostrou os anti­gos seg­re­dos bem guarda­dos. Es­quina por es­quina, vi as som­bras; hor­ta por hor­ta (ao Cam­in­ho No­vo) re­con­heci o meloal.. . As casas so­laren­gas têm as mes­mas pes­soas às por­tas. Lá es­tá o relo­joeiro, a padaria, o sap­ateiro, o Im­pério e a flor de est­ufa. Só o ami­go Maran­hão, com os vel­hos potes de bar­ro no es­caparate do muro, não dá sinais de me sus­peitar se­quer. Começamos a ser es­trangeiros onde nasce­mos, ou co­mo?! 

  Ago­ra é o coração que se con­strange. Vivi aqui e ali. Uma, duas, três casas, que abri­garam o ado­les­cente e pare­cem ol­har o homem maduro com ol­hos ce­gos, janelas ocas ... Tu­do is­to do son­ho e da saudade é uma men­ti­ra ar­ran­ja­da, um em­buste literário, ou o quê? En­tão não é ver­dade que aque­la vidraça era min­ha?, aque­le fer­rol­ho o des­can­so da mão de min­ha mãe?, aque­la beira e sobeira as tel­has que choraram os agua­ceiros que eu vi? E a nos­sa melan­co­lia nasceu ou não destes céus tristes, baixos, bur­ros? Porque nos não con­hecem e fes­te­jam as janelas, as begó­nias dos «gabi­netes» e as pe­dras das calçadas? 

  Mas pas­samos ao largo de tu­do e tu­do fi­ca in­cólume. Aqui só há uma coisa que se co­move -o coração que vai pas­san­do. As coisas chegam às vezes a um pon­to de sat­uração no re­gres­so e no amor que não há lá­gri­mas vi­vas que se­jam dig­nas de nós! De­saforo ex­pres­si­vo…Ex­ces­so con­fis­sion­al... Vou-​me con­ter. Não di­go mais na­da des­ta jor­na­da mati­nal das ruas de An­gra e dos seus portões ul­tra­pas­sa­dos em pere­gri­nação recôn­di­ta. Tu­do is­to é tur­is­mo bal­da­do, roteiro in­erte ... Para quê teimar em recol­her coisas talvez mal pas­sadas pela memória, e só aí?...A maior parte da matéria do mun­do in­te­ri­or que lev­amos é dessa qual­idade in­trans­fer­ív­el: tem es­sa só re­al­idade uni­lat­er­al. mes­mo quan­do em­pen­ha dois la­dos, co­mo por ex­em­plo o amor. 

  Aqui da Cana­da No­va vê-​se o Fanai recor­ta­do e cober­to das som­bras do Monte. Não quero mais pais­agens. Vou ao Mer­ca­do ver os melões do Tro­vão e os tor­res­mos do Faceli­ta. En­tro no Jardim (e re­caí...). Mas é a nave­gação da pais­agem o que eu aqui procuro! Re­con­heço os lu­gares, as re­lações das pe­dras -mais na­da! Ali é a fur­na das aven­cas, que até humedece a al­ma! Ali o quiosque da músi­ca, a mag­nólia de­sa­ta­da em carne bran­ca e aro­ma, a ro­seira enx­er­ta­da, o fe­to ar­bóreo, a palmeira em­pluma­da e ca­be­lu­da. Já cá não es­tá o Sal­vador com a sua bar­ba bran­ca de guardião par­adis­ía­co; já se não ou­vem lá em cima as tacadas do cró­quete nas tabelas e o An­tónio dos San­tos, quixotesco, es­fre­gan­do as mãos: