 «Bela bo­la!» A al­ma do Jardim é es­ta ... O seg­re­do da vi­da aqui es­tá! Ali foi o cara­manchãoz­in­ho das gueixas e o mais que se mu­dou; acolá sen­tavam-​se o sen­hor Vi­lar, o sen­hor Pi­canço ... O sen­hor Vi­lar, que, pi­gar­re­an­do, procla­ma­va de quar­to em quar­to de ho­ra con­tra a inanidade il­hoa: 

  -No con­ti­nente, sim! Is­so é que são ter­ras! 

  Evo­co. Uma ben­gala de castão de pra­ta risca a areia. O re­puxo cen­tral tece ao ven­to as suas gerbes de Boémia. Há peix­es ver­mel­hos, peix­es de pra­ta, um peixe com um can­cro ou uma flor na bar­batana. Lo­do de chum­bo e ar­quin­hos de fer­ro a to­da a or­la do la­go. Uma meni­na de trança e laço en­car­na­do pára e vê-​se... Tam­bém eu ve­jo ao es­pel­ho do tem­po que se foi o que me cus­ta a en­vel­he­cer.

  Va­mos lá ver o pre­to. O pre­to é de pe­dra e vom­ita água por um canudo: foi a primeira es­cul­tura pro­fana que em min­ha vi­da vi! Subo mais, e oiço a vel­ha lev­ada dos moin­hos: oiço can­tar a água pu­ra, va­lente, que de­sce das en­tran­has da il­ha. A deusa tem no peito um calor qual­quer que dá des­ta água... Is­to não pode ser senão um sinal de Cí­bele. Mas Cí­bele quem é? 

  Vagueio por to­da a vel­ha cidade, de lés a lés. Madruguei, e por is­so pude apan­har este sol ín­ti­mo e leve, que parece um pin­to de oiro que aca­ba de fu­rar a cas­ca de ovo. Vim até à Memória (o anti­go Caste­lo dos Moin­hos), que é o pon­to mais al­to da cidade. Memória! Que is­to se chame co­mo o meu sus­ten­to parece-​me co­in­cidên­cia de mais! Daqui abran­jo e ten­ho tu­do o que um dia foi meu ou que tal­hei para is­so no "pano para man­gas» do son­ho. À von­tad­in­ha... Dos il­héus das Cabras pode­ria ser o do­natário; dos Frad­in­hos o for­eiro, mas que é do Fa­cho do Monte Brasil? Quem já faz sinais aos navios en­tra­dos? Quem iça o ces­to?... A oeste fi­cam-​nos as tor­res de São Ma­teus e a igre­jin­ha vel­ha, des­ban­ca­da, que as va­gas de In­ver­no ameaçavam co­brir e de­spe­jar. E atrás de mim São João de Deus, a Pateira, o Reguin­ho -as avançadas do mun­do do pas­to e da gal­ha­da. 

  Quero perder-​me neste Pisão, nes­ta Pereira, neste Dester­ro -nes­tas cas­in­has dos bair­ros pop­ulares e forâ­neos des­ta cidade históri­ca, que com­bi­na tão bem o seu orgul­ho tor­rea­do com o dom bur­guês da ale­gria. Ter­ra de fes­tanças, co­mi­da a ro­dos; co­mo se diz por cá: cheia de carniça e da pan­zoa­da. O Cor­po San­to é o so­lar dos pescadores e dos re­madores da baía; mas em vão procuro às por­tas a cara do Cas­tan­heta ou do Chico Gor­ji­ta, meus ca­ma­radas da re­cru­ta de In­fan­taria 25. per­feitos ex­em­plares des­ta boa e man­hosa lábia de An­gra. A Rua do Castelin­ho é si­len­ciosa e ex­pres­si­va. quase mis­eráv­el. Na do Car­doso moram cos­tureir­in­has. pe­quenos em­pre­ga­dos e op­erários. Tu­do com janelas de vidraça mi­ud­in­ha e de ba­tente verde. Tu­do es­caio­la­do: há corti­nas de cas­sa em to­dos os posti­gos e uma begó­nia de fol­ha les­ma­da e caule pe­lu­do que espre­ita o pas­sante. 

  Co­mo tu­do is­to res­pi­ra o ar de quem não ve­jo! Co­mo estes tel­ha­dos, estes bal­cões, estes gi­rassóis dos quin­tais se pare­cem com a ausente!

  Ago­ra, é a cav­alo que. na vol­ta de um pas­seio por Pi­co da Urze e São Car­los. faço o périp­lo de An­gra. O cav­alo é um grande ci­cerone: lev­an­ta-​nos e dá-​nos o que es­tá para lá dos muros -a per­spec­ti­va de um arredor. Eu e o meu ami­go Virgínio Ávi­la, cav­aleiro tau­romáquico e eq­ui­ta­dor, va­mos de nos­so va­gar recol­hen­do a tarde adi­anta­da, afa­gan­do as mon­tadas à vista dos camiões, «fa­lan­do-​lh­es», dis­cor­ren­do... Que des­can­so me dá este bi­cho de pe