nte ver­dade -nem no Cor­vo, onde o Chac­tas de Chateaubriand se pôde espreguiçar à von­tade -, tem to­davia uma cer­ta razão in­te­ri­or: traduz car­icat­ural mente a nos­sa sen­sação in­su­lar de solidão e de lim­ite. Nós não temos me­do de que o mar nos alague ou de que a ter­ra nos falte: temos sem­pre pre­sente, co­mo salu­tar ad­vertên­cia, a sen­sação de que o mun­do é cur­to, e o tem­po mais cur­to ain­da. 

  Mas con­tra o que se pode­ria tirar da área aper­ta­da que nos coube no berço, quan­to à nos­sa equação com o mun­do e à nos­sa maneira de res­pi­rar a ver­dade é que ninguém mais do que o il­héu, a não ser talvez o homem da planí­cie, pos­sui o in­stin­to da am­plidão. É com os próprios ol­hos que tiramos do mar a ter­ra que nos fal­tou. Il­héus do que, de São Miguel para oeste, chamamos as il­has de Baixo, o dis­pos­iti­vo em que se en­con­tram as il­has do grupo cen­tral fa­vorece es­sa im­pressão de mo­bil­idade, de ter­ras son­hadas, que as il­has dão umas às out­ras. O cli­ma, húmi­do e baço, tor­na-​se cúm­plice da ilusão.

  Os nat­urais da cos­ta su­doeste da Ter­ceira, os da Gra­ciosa, os das duas ver­tentes da ser­ra úni­ca e lon­gi­tu­di­nal de São Jorge, o Pi­caro­to do Norte e o de Oeste, o Fa­ialense, acos­tu­mam-​se de meni­nos ao pal­pite e à sondagem do hor­izonte: são nat­ural­mente vi­gias ou ve­las. A at­itude rad­ical do il­héu é chegar à por­ta de casa e in­ter­rog­ar o mar. A rel­ati­va fre­quên­cia do nome «fanal», na to­ponímia aço­ri­ana não só at­es­ta a ne­ces­si­dade de sinal­iza­ção noc­tur­na, co­mo a rede de ata­la­ias que se for­ma nat­ural­mente em torno de ca­da il­ha e que, de umas às out­ras, se tece de pos­tos fixos ou aci­den­tais de es­pera e de ob­ser­vação. O nome de Vi­la das Ve­las, que coube à cabeça de povoa­men­to de São Jorge, põe na il­ha alpestre es­sa es­pé­cie de di­visa do des­ti­no islen­ho -que é vi­giar, ve­lar. 

  Ora ... Sem­pre que pen­so nos mis­térios do iso­la­men­to lem­bra-​me a história do Es­teves do Cor­reio e dos ca­gar­ros da pon­ta da Má Meren­da ... 

  Es­teves era trans­mon­tano. Es­teves era chefe de es­tação telé­grafo-​postal de ter­ceira classe. Mas Es­teves tam­bém era car­ran­cu­do e re­pon­tão. De mo­do que con­sidero (um pouco gra­tuita­mente) a chega­da de Es­teves às il­has de Baixo, na qual­idade de fun­cionário das co­mu­ni­cações nor­mais e acel­er­adas, co­mo o re­sul­ta­do de uma in­dis­posição públi­ca en­tre ele e a sua força­da clien­tela postal de Trás-​os-​Montes.

  A su­fi­ciên­cia, o despo­tismo, a tira­nia telé­grafo-​postal do Es­teves do Cor­reio é uma das ad­mi­rações mais pro­fun­das da min­ha in­fân­cia e da min­ha ado­lescên­cia de il­héu. Oh!, man­hãs in­teiras pas­sadas à es­pera de um se­lo, à grade do ex­pe­di­ente, fi­tan­do os carim­bos pou­sa­dos na al­mo­fa­da resse­qui­da co­mo a fi­siono­mia do Es­teves, en­quan­to ele, na sala fron­teira da es­tação, gri­tan­do um «es­pere!» de do­mador de feras ao meu atre­vi­men­to de bater com uma moe­da no bal­cão, se ocu­pa­va de não sei que mis­te­riosas es­critas ou con­fer­ên­cias de ver­bas. 

  Do out­ro la­do da grade e para lá dos carim­bos pou­sa­dos, as rod­in­has den­teadas do apar­el­ho Hugh­es, es­treme­cen­do àquela ex­ci­tação lin­ear que vin­ha de An­gra, es­per­avam tam­bém. Bem se im­por­ta­va Es­teves com o telé­grafo eléc­tri­co, o sis­tema Morse e os seus traços e pon­tos, pon­tos e traços de chama­da! Que­ria lá saber! O im­por­tante era a es­cri­ta e lá os seus hu­mores de pai de família mal pa­go. 

  En­fim: quan­do Es­teves acha­va que era a al­tura, vin­ha acud­ir à fi­ta, resmunga­va para