 mim uma re­spos­ta tor­ta, fazia-​me es­per­ar até de­cifrar, co­lar e man­dar dis­tribuir o tele­gra­ma, cor­tan­do-​me só en­tão, da fol­ha pi­co­ta­da, o be­lo se­lo da efígie de D. Manuel II, com a so­bre­car­ga «Repúbli­ca». 

  O Es­teves do Cor­reio! O seu mau hu­mor, a sua ben­gala, a sua cara en­cor­tiça­da, a in­qui­etação e o mal-​es­tar que a sua chefia telé­grafo-​postal se­mea­va na vi­la, sem que ninguém se atrevesse (nem o médi­co!) a dar o mais leve in­dí­cio de um de­scon­tenta­men­to ger­al! Po­bre homem! Bom homem, que imo­laste o teu feitio e o teu dester­ro à min­ha in­fân­cia, para que nela hou­vesse a som­bra be­nigna de um tira­no ca­seiro, ou o ex­em­plo vi­vo de não sei que en­ti­dade feu­dal, cu­jo caste­lo pa­ga­va ren­da a meu pai na sua qual­idade de procu­rador de uma ausente, e tin­ha à en­tra­da, em vez de ponte levadiça, aque­le portão provi­do de uma gre­ta e de uma port­in­ho­la de met­al onde en­fiei a tremer o meu primeiro orig­inal des­ti­na­do à le­tra de for­ma! 

  À tarde, chega­va o Manuel Macha­do carteiro; par­ava o ma­cho à en­tra­da da Rua do Rossio. Mala à vista! E, à luz de petróleo das ven­das e dos vestíbu­los das casas, lá ia o Joaquim Gi­es­ta dis­tribuir o pun­hado de cor­re­spondên­cia so­bre que Es­teves descar­regara, co­mo quem ati­ra chum­badas às per­nas de lará­pios de capoeira, as pan­cadas de­ses­per­adas do carim­bo. Era o Es­teves quase no Largo da Luz, em ir­ri­ta­do, e meu tio Ma­teus, em aten­to e pací­fi­co, duas ou três casas abaixo ... En­tre os dois -a es­tá­tua de José Sil­vestre e as duas araucárias eter­nas. Já lá es­tão am­bos, na mão do Sen­hor e no es­curo das co­vas do vale Far­to! 

  Mas a história dos ca­gar­ros ia fi­can­do por con­tar. Ora foi o ca­so que Es­teves, chega­do de fres­co à il­ha, re­solveu dar um pas­seio à ser­ra do Fa­cho, es­paire­cer. Es­ta­va, nat­ural­mente, ain­da magoa­do do dester­ro; e aque­la sua ex­pe­di­ta maneira de despachar os fregue­ses ain­da não cri­ara ca­ma. Fos­se co­mo fos­se, subiu a Ladeira Devas­sa e lá se em­bren­hou nas falésias da pon­ta da Má Meren­da. Es­col­hera bem, não há dúvi­da ... Ali, o céu il­héu é uma pu­ra car­ran­ca e o pouco de ter­ra que o mar con­sente emp­ina-​se e ene­grece. De um la­do, o vale do Ramo Grande com a vi­la da Pra­ia ao fun­do; do out­ro, o mar do il­héu do Es­par­tel, que, som­brio e aper­ta­do dos roche­dos, parece um tin­teiro en­tor­na­do ou uma al­ma pe­na­da que, não po­den­do mais, reben­ta. Es­teves, de ben­gala atrás das costas, me­dia o atal­hin­ho prat­ica­do quase no fio da rocha, por onde pas­savam os bois do Almei­da a um de fun­do, e ago­ra, com o cre­do na bo­ca, An­tónio Es­teves, chefe de es­tação telé­grafo-​postal de ter­ceira classe, nat­ural da provín­cia de Trás-​os-​Montes, ar­rib­ado à il­ha Ter­ceira. 

  En­tão, co­mo que por en­can­to, começaram a jun­tar-​se, vin­dos daqui e dali, das fur­nas da ban­da da ter­ra e das fur­nas da ban­da do mar, uns bi­chos es­carn­in­hos, de pe­na arisca e asa ráp­ida, que iam pairan­do e aper­tan­do o cer­co a Es­teves. Ao al­to da falésia, pare­cia uma legião in­fer­nal. O seu gri­to marí­ti­mo, aos nos­sos ou­vi­dos il­héus, não é de­sen­graça­do; é qual­quer coisa co­mo: garr... lhé! garr ... lhé!

  Que havia Es­teves de ou­vir?  .. : 

  -Agar­ra: é il­héu! Agar­ra: é il­héu! 

  En­tão, ar­repiando cam­in­ho e lev­an­tan­do a ben­gala em di­recção aos ca­gar­ros, gri­tou: 

  -Eu não sou il­héu! Sou do con­ti­nente!

  III. Vi­da de Bor­do 

  7 de Agos­to de 1946 

  Atiro-​me de al­ma e coração a este roteiro tan­to tem­po son­hado e só ago­ra em­preen­di­do. É uma vi­