agem ba­nal, dez vezes fei­ta e des­fei­ta nos seus dois ru­mos monótonos, pre­ce­di­da das mes­mas ex­pec­ta­ti­vas e segui­da de iguais recor­dações. As recor­dações des­ta eta­pa es­capam-​se por en­quan­to (claro!). Mas as ex­pec­ta­ti­vas... 

  Ah! Es­sas aqui es­tão cheias, in­teiras à en­tra­da da re­al­idade que as des­faz neu­tral­mente, pe­lo sim­ples fac­to de que, transpon­do-​as, lh­es de­strói a es­pera, a es­per­ança, o crédi­to -en­fim, tu­do o que as faz adi­antada­mente sub­stân­cia de tem­po. Bem ou mal, as­sim ou as­sa­do, o que me vai suced­er deixou de ter­giver­sar. Só es­peran­do me era pos­sív­el aven­tu­rar num ou noutro sen­ti­do, e lo­go cor­ri­gir a aven­tu­ra en­sa­ian­do-​a de mo­do opos­to. Ago­ra, en­tran­do no pa­que­te, pen­etrei no domínio turís­ti­co dos fac­tos con­suma­dos. Já não revo­go na­da; na­da deixo em sus­pen­so. 

  Nem se­quer já me bal­anço na es­quisi­ta ex­ci­tação que pre­cedeu es­ta larga­da: «Vou! Não vou?» Umas vezes: «Vou!» Out­ras: «Não!» Maldita condição pen­du­lar da von­tade! Per­pé­tua in­de­ter­mi­nação do disponív­el e do gra­tu­ito…

  Mas já vou mes­mo ! . .. De­spe­di-​me. Em­bar­quei. Par­ti. Fiz, en­fim, um par de pretéri­tos per­feitos e próprios das vi­agens ... Já o meu próprio es­cr­ev­er é flu­ido co­mo o mar e, co­mo ele, ilógi­co. Uma cin­za húmi­da e fres­ca tornou-​se co­mum às águas, ao céu, à al­ma, à cabeça. Só o coração vi­gia in­teiro e saudáv­el nas primeiras der­ro­tas do mar. (Eu dur­mo e o meu coração vi­gia.)

  Naveg­amos am­bos, o coração e eu. Parece que a es­sên­cia do nave­gar é o ve­lar; mas quem vela no vi­ajante deste itin­erário bú­cio talvez não se­ja a sua mente, e não é com certeza a sua con­vicção. Primeiro, porque o vi­ajante força­do não pen­sa grande coisa; se­gun­do, porque não es­tá real­mente em­bar­ca­do e con­vic­to…

  Vai pe­los ca­be­los. O próprio pa­que­te lhe parece um tabuão à deri­va, ar­ras­ta­do no mar p o r al­gum génio dos fun­dos abis­sais. Malé­fi­co ou bené­fi­co? Chi lo sa?... Sereia - não deve ser. Além do ridícu­lo es­tru­tu­ral dess­es híbri­dos, deixou de haver mi­tografi­ca­mente sereias. A metade peixe é boa para a mesa de jan­tar e cor­tam-​na na co­zin­ha. A metade mul­her, por fal­ta desse órgão cau­dal que pren­dia o mon­stro ao meio sali­no, acabou por cair, por em­igrar ...

  O navio, al­iás, nave­ga pe­los seus próprios meios, sem re­boque mecâni­co ou an­imal, e é com o seu ver­dadeiro am­bi­ente -a vi­da de bor­do -que con­segue en­fim pren­der e do­mar a min­ha imag­inação vagabun­da. Sin­to-​me en­fim situ­ado. Há aqui bom­bor­bo e es­ti­bor­do, proa e ré, deck e porão. E, di­ante de nós, uma lin­ha imag­inária a que chamamos hor­izonte. 

  Não... Is­to já não é o clás­si­co va­por das Il­has, cheio de es­tu­dantes es­túr­dios, de caix­eiros-​vi­ajantes opin­iosos, de pro­pri­etários il­héus de vol­ta ao lar e de fun­cionários con­ti­nen­tais en­joa­dos e tristes do seu primeiro dester­ro. Haverá de to­das es­tas condições a bor­do, não du­vi­do: só não há a matéria psi­cológ­ica que out­ro­ra lh­es servia de ci­men­to. 

  A vol­ubil­idade tin­ha as suas re­gras; o di­ver­ti­men­to as suas prax­es e eta­pas. De­sa­pare­ceu do con­vés o tram­polim do bur­ro com as re­spec­ti­vas pate­las. Neste mes­mo bar­co a pisci­na foi uma great at­trac­tion: ho­je não a há. Tam­bém ain­da não vi que o xadrez de um bar­al­ho es­ten­desse o seu leque nas mesas de jo­go in­tac­tas, e à ro­da das quais cer­ta­mente as pes­soas que ve­jo trans­portam con­si­go a vir­tu­al­idade de uns par­ceiros. 

  Mor­reu a ale­gria a bor­do. S