ó o en­joo é eter­no e vi­vaz. Começou o meu roteiro pela ron­da noc­tur­na aos en­joa­dos que o ex­ces­so de lotação amar­rou às cadeiras ar­tic­uladas. Mas até ess­es me pare­cem menos in­ter­es­santes que os en­joa­dos anti­gos, de­sacli­mata­dos às zonas que lh­es com­petem nos decks, com caras e posições in­fini­ta­mente menos típi­cas -e com menos man­tas de vi­agem. Há menos bonés; e, até ago­ra, só reg­is­tei uma boina. Mas o en­joo con­tin­ua a ser um grande es­cul­tor, es­ca­van­do as feições e enchen­do-​as de uma luz muito lúgubre. O en­joo é cer­ta­mente um mal be­nig­no, mas aprox­ima a toi­lette do vi­vo do tou­ca­do do mori­bun­do. Aqui, uma face ter­rosa e bela de ra­pari­ga deixou-​se vencer pela acção da va­ga de través. O seu cor­po fi­no e es­bel­to parece uma toal­ha amar­ro­ta­da na lona da cadeira. Uma mas­sa vis­cosa, in­equívo­ca, alas­tra no chão per­to dela. 

  Para que tu­do mude e o anti­go en­can­to destas vi­agens me pareça de to­do per­di­do, sub­sti­tuíram a bor­do as va­lentes cam­painhadas, que anun­ci­avam as refeições, pelas mac­etadas de gongue de uma marim­ba ja­vane­sa -o que lem­bra os pa­que­tes de luxo e de lon­go cur­so en­goli­dos ou as­su­cata­dos pela guer­ra. Era des­ta maneira que Mon­taigne que­ria que acor­dassem os meni­nos em seus quar­tos. E lá va­mos lavar as mãos, di­re­itos à canal­iza­ção in­ter­na do navio, car­rega­da de bor­borig­mos ... 

  Não... Real­mente já não naveg­amos no lendário Açor ou no minús­cu­lo, féti­do mas saudoso Fun­chal da min­ha ado­lescên­cia. Mas tam­bém não será a melo­diosa marim­ba ja­vane­sa que, pela imag­inação, nos porá a bor­do de um Balo­eren, a cam­in­ho de Sin­ga­pu­ra ou de ro­ta bati­da a Ro­ter­dão. 

  In­sta­la­do na peca re­al­idade in­ter­na de tal roteiro, aper­to a lom­ba­da do lon­go ro­mance de Con­rad que trouxe para as ho­ras de fas­tio -e é co­mo quem, em ple­na Falper­ra, apal­pa­va a coron­ha da pis­to­la fagueira e ca­mil­iana ... Es­tou de­fen­di­do con­tra o té­dio de bor­do até à ca­ma­da mais ín­ti­ma do imag­inar e do en­treter. Um to­mo da Pearl Buck vai comi­go a bom­bor­do -que é o la­do do coração. 

  No tem­po do Açor dizia-​se, à ré: cuida­do com as hélices, e as pes­soas cu­riosas e in­struí­das dis­cu­ti­am na casa de fu­mo so­bre se se de­via diz­er os hélices ou as hélices, e se era con­ve­niente aguen­tar o h no começo da palavra ... Co­mo este, out­ros san­tos e eru­di­tos cos­tumes se perder­am. Já a meni­na .. bem» não dá a vol­ta ao con­vés, de pé ata­do à calça daque­le afoito sen­hor. Que é do binócu­lo matuti­no, sen­sív­el à ton­in­ha emer­gente e ao fu­mo do petroleiro? 

  Metade da nos­sa vi­da se vai na maré do car­voeiro, e ver­ifi­co que a Saudade nave­ga a óleos pe­sa­dos. O sino de bor­do, out­ro­ra, era tão con­vin­cente nos quar­tos post merid­ium, quan­do ain­da o tom dos madeira­men­tos das câ­maras en­vidraçadas era o do mog­no poli­do, por den­tro e por fo­ra, e o vidro en­ra­ma­do e fos­co. E que doce, o ras­car do pi­aça­ba nas tabuin­has do con­vés! 

  Cin­co ho­ras da man­hã -baldeação. No navio de­ser­to a froux­idão das lâm­padas atar­rachadas aprox­ima-​me do coração de meu mestre Joseph Con­rad, capitão de lon­go cur­so com quem afi­nal na­da apren­di... Na min­ha ter­ra chama-​se a es­ta es­pé­cie de es­túpi­dos «ar­ru­das do en­tendi­men­to». Se ao menos, já que Con­rad me não deu o génio do mar e a ficção dos por­tos do Índi­co, me en­si­nasse a tomar a al­tura do Sol neste dia cor de clara de ovo em que navego para a Madeira, com des­ti­no aos Açores…

  Mas não. Tu­do é frustra­do e tor­to neste 1946, Jul­ho 25, em que Ma­teus Queima