­do me pede a pe­na em­presta­da, e se põe a falar por cima do meu om­bro co­mo um títere de bar­ra­ca de lona. Cabeça de pau! Pedaço de bonifrate pseu­do­cos­mopoli­ta, que perdeu a metrópole e o mi­cro­cos­mo não sei onde ... Es­tratage­ma! Es­tratage­ma! 

  Ve­jamos ago­ra o mar. Chamar suave e bela a uma coisa destas, cha­ta, mex­ida, com bo­ca­dos bran­cos meti­dos no meio do cinzen­to! Gostar da água es­ten­di­da co­mo se fos­se um so­lo -mas sem ár­vores, a não ser a ár­vore se­ca de al­gum po­bre iate em cal­maria ... ! A hipocrisia lavrou a ter­ra e o mar co­mo um ver­dadeiro es­cal­ra­cho. Já não se dizem as coisas di­rec­ta­mente; to­dos fin­gem o que não são e ar­mam ao que não têm.

  O mar... La mer, la mer, tou­jours re­nou­vel­lée…Diz is­to o po­eta. E, co­mo o po­eta é Valéry, a min­ha imag­inação anar­quiza­da e in­sofri­da tro­ca o largo Atlân­ti­co pe­lo Mediter­râ­neo, e a prox­im­idade de Por­to San­to por Palavas-​les-​Flots, onde vi ban­har as ju­dias ... 

  A ver­dade é que só amo o mar reben­ta­do e coléri­co, prin­ci­pal­mente o das pra­ias e dos re­cifes: de­testo cor­dial­mente este mar en­ro­la­do, co­mo mas­sa a fol­har pe­lo pasteleiro de bor­do -es­ta coisa es­tanha­da e es­tól­ida co­mo um ol­ho sem pálpe­bra, que já não tem na­da que ol­har. Ao menos, um veleiro é be­lo; um couraça­do é be­lo! Mas o al­to mar par­rana não é be­lo. Tu­do se es­vai e es­fu­ma nes­ta ex­ten­são sem refer­ên­cia. Cheira a tin­ta de óleo e a cor­da co­zi­da por to­da a parte. Sei bem que is­to é da en­tran­ha do pa­que­te, co­mo o far­tum a ra­to é do nin­ho de ra­to. Mas atiro com as cul­pas para cima do mar sem lim­ites. 

  Com o anoite­cer, as prob­abil­idades de ter­ra au­men­tam. As primeiras gaiv­otas car­regam a asa di­re­ita para o cal­ado do navio. Há um pouco menos de va­ga de través e prom­etem-​nos Por­to San­to lá para as três da madru­ga­da. Que faz­er, senão saltar ao be­liche, fechar os ol­hos na es­per­ança e con­ser­vação de quem deixá­mos e es­per­ar a primeira crista de monte na il­ha da paz e dos coel­hos? 

  IV. A Il­ha dos Coel­hos 

  21 de Agos­to de 1946

  In­fe­liz­mente o navio fun­deia em Por­to San­to a uma ho­ra in­con­ce­bív­el: três da madru­ga­da; e de­scubro, com má­goa, que já me fal­ta aque­la in­genuidade mar­in­ha que faz lev­an­tar os pas­sageiros ce­do para verem sur­gir, en­tre os ne­grumes de céu e mar, a co­biça­da ter­ra... O Por­to San­to, al­iás, é um tropeço nes­ta ro­ta. Já várias pes­soas se queix­am da lentidão mor­tal de semel­hante vi­agem: doze mil­has à ho­ra na era do avião e do áto­mo! E, con­sideran­do que va­mos no ru­mo dos grandes aeró­dro­mos atlân­ti­cos (San­ta Maria e Ter­ceira), es­sas pes­soas choram a fal­ta de Clip­pers, o tor­por dos con­gres­sos de avi­ação, en­fim a les­ma do pro­gres­so al­ado nos artel­hos... 

  Não faço pro­pri­amente coro com os meus com­pan­heiros de vi­agem. Con­fes­so um me­do co­barde à car­lin­ga, que es­pero vencer. Con­fes­so, ain­da, ape­sar do mau hu­mor em que me puser­am os primeiros dias de mar, uma rad­ical fi­del­idade à es­teira dos navios, ao seu morno bal­anço nas corda­gens, à noc­tur­na e fres­ca paz dos tombadil­hos ... Mas, na ver­dade, is­to é um pouco en­er­vante. Tomar o ru­mo da Madeira para al­cançar os Açores -só de quem não tem que faz­er... 

  Para me de­scul­par da preguiça que me amar­ra ao be­liche en­quan­to se atinge e ul­tra­pas­sa um pedaço de ter­ra firme, alego a noite es­cu­ra co­mo breu, que nos não deixa ver na­da; pre­tex­to, ain­da, anti­gas sin­graduras ao largo de Por­to San­to. Mas pre­cisa­mente o Por­to San­to noc­turno é que se­ria no­vo e be­lo! 

  E ve