jo a il­ha se­ca, es­garça­da ao largo da Madeira co­mo cenário de pa­pelão de um amare­lo en­car­di­do, to­da de­sen­ha­da em ares­ta vi­va e com uma cor­co­va a meio. A im­pressão que conser­vo é a de uma imen­sa pra­ia es­pal­da­da por uma corti­na de rele­vo semi­cir­cu­lar: não uma mon­tan­ha verde e nat­ural co­mo as out­ras, mas um pi­co de areia, um ver­dadeiro desmonte de ma­te­ri­ais de fachi­na, feito à mol­hel­ha e à gamela ... Sente-​se naque­le telúri­co e des­ola­do es­ten­dal o es­polin­hadoiro nat­ural dos coel­hos de Bar­tolomeu Per­estre­lo, prodí­gio da políti­ca de­mográ­fi­ca dos fins do sécu­lo XV... 

  Mo­ra ali uma próvi­da pop­ulação de es­cas­sas cen­te­nas de al­mas en­tregues à pesca, à cul­tura da vin­ha, ao fun­cional­is­mo in­dis­pen­sáv­el à co­brança dos im­pos­tos e ao içar da ban­deira na­cional no mas­tro da Casa da Alfân­de­ga. Es­tas il­has pe­que­nas e puras, co­mo Por­to San­to, San­ta Maria, Gra­ciosa, Flo­res, e so­bre­tu­do o miniat­ural e in­crív­el Cor­vo, dão-​me a im­pressão de ex­is­tirem ad­min­is­tra­ti­va­mente ape­nas co­mo sim­ulacros pueris de ajun­ta­men­tos hu­manos, já Chateaubriand, pas­san­do na Gra­ciosa a cam­in­ho da Améri­ca nos fins do sécu­lo XVI­II, reg­is­ta­va es­sa sen­sação de fin­is­ter­ra a que a crat­era do Pi­co dá grandeza e fun­dura, e que a mísera casaca verde, aga­loa­da de ouro nos seus tem­pos, do capitão-​mor de San­ta Cruz, pren­dia efe­mer­amente às vi­cis­si­tudes deste mun­do. 

  Po­bres e minús­cu­las il­has da solidão, coroadas de ca­gar­ros e de nu­vens, onde a vi­da hu­mana ain­da tem, de quan­do em quan­do, o sa­bor dos primeiros dias da cri­ação do mun­do... Das es­pes­sur­as oníri­cas da min­ha gave­ta de bor­do son­ho-​me corsário ou mer­cador. Abor­damos a Por­to San­to em pleno quar­to de al­va, já se adi­vin­ha na es­curidão do cal­ado do pa­que­te um va­go livor de dia. O mar é tin­ta de es­cr­ev­er, mas já a il­ha se adi­vin­ha abrup­ta, com­pacta, a uns quin­hen­tos met­ros da es­ca­da do por­taló. Tão ce­do en­trá­mos, que foi pre­ciso ar­rear de véspera a es­ca­da de es­ti­bor­do para adi­antar serviço. É só largar a mala, um ou dois pas­sageiros que vêm não se sabe de onde e vão não se sabe a quê, e aque­la meia dúzia de lin­gadas de car­ga que mal que­bram o silên­cio abor­ri­do dos ca­marotes e partem no lanchão solitário em di­recção a ter­ra. 

  O que irá ali, meu Deus?...ja­mais car­ga no mun­do me pare­ceu tão ri­ca e essen­cial a um mín­imo de vi­da hu­mana. Uma dúzia de maços de ve­las de es­tea­ri­na…dois ou três far­dos com fazen­das…a pre­ciosa bil­ha de azeite para o gu­loso... e pouco mais. Quem sabe se um pa­cote de livros ... uma sorveteira ... um breve capri­cho mecâni­co que vai cal­mar o fre­nes­im de al­gum il­héu in­sofri­do? ..  

  Não quero cá saber! Gostaria de ser guar­da-​fis­cal no Por­to San­to, não para im­por­tu­nar o úni­co pas­sageiro men­sal que vai em de­man­da da il­ha, mas para ou­vir chiar os ca­gar­ros à min­ha ri­ca von­tade, e jog­ar as car­tas na Casa do Sal, à luz de uma can­deia de azeite de peixe ou de baleia. Tão bom! Tirar o cin­turão, me­ter a caixa de fós­foros na al­gibeira do dól­man de co­tim, bater a pala ao ad­min­istrador do con­cel­ho e ao del­ega­do marí­ti­mo... E talvez ter a elas­ti­ci­dade dos coel­hos de Per­estre­lo nes­ta il­ha austera e bem-​ama­da. 

  Quem de­se­ja es­tas coisas pas­sa por po­eta ou por to­lo. São as úni­cas coisas boas e autên­ti­cas deste mun­do! Eu, nes­ta vi­agem com­pri­da e súbi­ta, ten­ho out­ros son­hos ain­da. Ess­es, porém, guar­do-​os en­ver­gonhado e co­movi­do. 

  Es­tou muito bem-​dis­