os bas­ta, pois, que ten­hais tan­tos e tão ar­ma­dos in­imi­gos de fo­ra, senão que tam­bém vós de vos­sas por­tas a den­tro o haveis de ser mais cruéis, perseguin­do-​vos com uma guer­ra mais que civ­il, e comen­do-​vos uns aos out­ros? Cesse, cesse já, ir­mãos peix­es, e ten­ha fim al­gum dia es­ta tão per­ni­ciosa dis­cór­dia; e pois vos chamei e sois ir­mãos, lem­brai-​vos das obri­gações deste nome. Não es­táveis vós muito qui­etos, muito pací­fi­cos e muito ami­gos to­dos, grandes e pe­quenos, quan­do vos pre­ga­va San­to An­tónio? Pois con­tin­uai as­sim e sereis fe­lizes.

  Dir-​me-​eis (co­mo tam­bém dizem os home­ns) que não ten­des out­ro mo­do de vos sus­ten­tar. E de que se sus­ten­tam en­tre vós muitos que não comem os out­ros? O mar é muito largo, muito fér­til, muito abun­dante, e só com o que bo­ta às pra­ias pode sus­ten­tar grande parte dos que vivem den­tro dele. Com­erem-​se uns an­imais aos out­ros é vo­raci­dade e seví­cia, e não es­tatu­to da na­tureza. Os da ter­ra e do ar, que ho­je se comem, no princí­pio do mun­do não se co­mi­am, sendo as­sim con­ve­niente e necessário para que as es­pé­cies de to­dos se mul­ti­pli­cas­sem. O mes­mo foi, e ain­da mais clara­mente, de­pois do Dilúvio, porque ten­do es­capa­do so­mente dois de ca­da es­pé­cie, mal se po­di­am con­ser­var, se se comessem. E fi­nal­mente no tem­po do mes­mo Dilúvio, em que to­dos viver­am jun­tos den­tro da Ar­ca, o lobo es­ta­va ven­do o cordeiro, o gav­ião a perdiz, o leão o gamo, e ca­da um aque­les em que se cos­tu­ma ce­var; e se aca­so lá tiver­am es­sa ten­tação, to­dos lhe re­si­sti­ram e se aco­modaram com a ração do paiol co­mum, que Noé lh­es repar­tia. Pois se os an­imais dos out­ros el­emen­tos mais cáli­dos foram ca­pazes des­ta tem­per­ança, porque o não serão os da água? En­fim, se eles em tan­tas ocasiões, pe­lo de­se­jo nat­ural da própria con­ser­vação e au­men­to, fiz­er­am da ne­ces­si­dade vir­tude, fazei-​o vós tam­bém; ou fazei a vir­tude sem ne­ces­si­dade, e será maior vir­tude. 

  Out­ra coisa muito ger­al, que não tan­to me desed­ifi­ca, quan­to me las­ti­ma, em muitos de vós, é aque­la tão notáv­el ig­norân­cia e cegueira que em to­das as vi­agens ex­per­imen­tam os que naveg­am para es­tas partes. Toma um homem do mar um an­zol, ata-​lhe um pedaço de pano cor­ta­do e aber­to em duas ou três pon­tas, lança-​o por um cabo del­ga­do até to­car na água, e em o ven­do o peixe, ar­remete cego a ele e fi­ca pre­so e bo­que­an­do, até que, as­sim sus­pen­so no ar, ou lança­do no con­vés, aca­ba de mor­rer. Pode haver maior ig­norân­cia e mais re­mata­da cegueira que es­ta? En­gana­dos por um re­tal­ho de pano, perder a vi­da! Dir-​me-​eis que o mes­mo fazem os home­ns. Não vo-​lo nego. Dá um exérci­to batal­ha con­tra out­ro exérci­to, metem-​se os home­ns pelas pon­tas dos piques, dos chuços e das es­padas, e porquê? Porque hou­ve quem os en­godou e lh­es fez is­ca com dois re­tal­hos de pano. A vaidade, en­tre os ví­cios, é o pescador mais as­tu­to e que mais facil­mente en­gana os home­ns. E que faz a vaidade? Põe por is­ca nas pon­tas dess­es piques, dess­es chuços e dessas es­padas dois re­tal­hos de pano, ou bran­co, que se chama hábito de Mal­ta, ou verde, que se chama de Aviz, ou ver­mel­ho, que se chama de Cristo e de San­ti­ago; e os home­ns, por chegarem a pas­sar esse re­tal­ho de pano ao peito, não reparam em tra­gar e en­golir o fer­ro. E de­pois dis­so que sucede? O mes­mo que a vós. O que en­goliu o fer­ro, ou ali ou noutra ocasião, fi­cou mor­to; e os mes­mos re­tal­hos de pano tornaram out­ra vez ao an­zol para pescar out­ros. Por este ex­em­plo vos con­ce­do, peix­es, que os home­ns fazem o mes­mo que