 vós, pos­to que me parece que não foi este o fun­da­men­to da vos­sa re­spos­ta ou es­cusa, porque cá no Maran­hão, ain­da que se der­rame tan­to sangue, não há exérci­tos nem es­ta am­bição de hábitos. 

  Mas nem por is­so vos ne­garei que tam­bém cá se deix­am pescar os home­ns pe­lo mes­mo engano, menos hon­ra­da e mais ig­no­rada­mente. Quem pesca as vi­das a to­dos os home­ns do Maran­hão, e com quê? Um homem do mar com uns re­tal­hos de pano. Vem um mestre de navio de Por­tu­gal com qua­tro varreduras das lógeas, com qua­tro panos e qua­tro sedas, que já se lhe pas­sou a era e não tem gas­to. E que faz? Is­ca com aque­les tra­pos aos moradores da nos­sa ter­ra; dá-​lhe uma sacadela e dá-​lhe out­ra, com que ca­da vez lhe sobe mais o preço; e os boni­tos, ou os que o querem pare­cer, to­dos es­faima­dos aos tra­pos; e ali fi­cam en­gas­ga­dos e pre­sos, com dívi­das de um ano para o out­ro ano e de uma safra para out­ra safra, e lá vai a vi­da. Is­to não é en­car­ec­imen­to. To­dos a tra­bal­har to­da a vi­da, ou na roça, ou na cana, ou no en­gen­ho, ou no taba­cal; e este tra­bal­ho de to­da a vi­da, quem o le­va? Não o lev­am os coches, nem as liteiras, nem os cav­al­os, nem os es­cud­eiros, nem os pa­jens, nem os la­caios, nem as tapeçarias, nem as pin­turas, nem as bax­elas, nem as jóias; pois em que se vai e de­spende to­da a vi­da? No triste far­rapo com que saem à rua. E para is­so se matam to­do o ano!

  Não é is­to, meus peix­es, grande lou­cu­ra dos home­ns com que vos es­cu­sais? Claro es­tá que sim; nem vós o podeis ne­gar. Pois se é grande lou­cu­ra es­perdiçar a vi­da por dois re­tal­hos de pano quem tem obri­gação de se ve­stir, vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de pe­les de tão vis­tosas e apro­pri­adas cores, ou de es­ca­mas prateadas e douradas, vesti­dos que nun­ca se rompem nem gas­tam com o tem­po nem se vari­am ou po­dem vari­ar com as modas, não é maior ig­norân­cia e maior cegueira deixares-​vos en­ga­nar, ou deixares-​vos tomar pe­lo beiço com duas tir­in­has de pano? Vede o vos­so San­to An­tónio, que pouco O pôde en­ga­nar o mun­do com es­sas vaidades. Sendo moço e no­bre, deixou as galas de que aque­la idade tan­to se preza, tro­cou-​as por uma lo­ba de sar­ja e uma cor­reia de cónego re­grante; e de­pois que se viu as­sim vesti­do, pare­cen­do-​lhe que ain­da era muito cus­tosa aque­la mor­tal­ha, tro­cou a sar­ja pe­lo bu­rel e a cor­reia pela cor­da e com aque­le pano pescou ele muitos, e só estes se não en­ga­naram e foram sisu­dos. 


V


  De­scen­do ao par­tic­ular, di­rei ago­ra, peix­es, o que ten­ho con­tra al­guns de vós. E, começan­do aqui pela vos­sa cos­ta: no mes­mo dia em que cheguei a ela, ou­vin­do os ron­cadores e ven­do o seu taman­ho, tan­to me mover­am a riso co­mo a ira. É pos­sív­el que, sendo vós uns peix­in­hos tão pe­quenos, haveis de ser as ron­cas do mar? Se com uma lin­ha de coser e um alfinete tor­ci­do vos pode pescar um alei­ja­do, porque haveis de ron­car tan­to? Mas por is­so mes­mo ron­cais. Dizei-​me: o es­padarte porque não ron­ca? Porque, or­di­nar­ia­mente, quem tem mui­ta es­pa­da tem pou­ca lín­gua. Is­to não é re­gra ger­al; mas é re­gra ger­al que Deus não quer ron­cadores, e que tem par­tic­ular cuida­do de abater e hu­mil­har aos que muito ron­cam. S. Pe­dro, a quem muito bem con­hece­ram vos­sos an­tepas­sa­dos, tin­ha tão boa es­pa­da, que ele só avançou con­tra um exérci­to in­teiro de sol­da­dos ro­manos; e, se Cristo lha não man­dara me­ter na bain­ha, eu vos prome­to que havia de cor­tar mais orel­has que a de Mal­co. Con­tu­do, que lhe sucedeu naque­la mes­ma noite? Tin­ha ron­ca­do e bar­batea­do Pe­dro, que, se to­dos fraque­assem, só ele havia de ser con­stante até