es havia peca­do orig­inal! Nós, os home­ns, fo­mos tão des­graça­dos, que out­rem comeu e nós o pagá­mos. To­da a nos­sa morte teve princí­pio na gu­lodice de Adão e Eva; e que ha­jamos de mor­rer pe­lo que out­rem comeu, grande des­graça! Mas nós lava­mo-​nos des­ta des­graça com uma pou­ca de água, e vós não vos podeis lavar da vos­sa ig­norân­cia com quan­ta água tem o mar.

  Com os voadores ten­ho tam­bém uma palavra, e não é pe­que­na a queixa. Dizei-​me, voadores, não vos fez Deus para peix­es? Pois por que vos meteis a ser aves? O mar fê-​lo Deus para vós, e o ar para elas. Con­tentai-​vos com o mar e com o nadar, e não queirais voar, pois sois peix­es. Se aca­so vos não con­heceis, ol­hai para as vos­sas es­pin­has e para as vos­sas es­ca­mas, e con­hecereis que não sois ave, senão peixe, e ain­da en­tre os peix­es não dos mel­hores. Dir-​me-​eis, voador, que vos deu Deus maiores bar­batanas que aos out­ros do vos­so taman­ho. Pois porque tivestes maiores bar­batanas por is­so haveis de faz­er das bar­batanas asas? Mas ain­da mal, porque tan­tas vezes vos de­sen­gana o vos­so cas­ti­go. Quis­es­tes ser mel­hor que os out­ros peix­es, e por is­so sois mais mofi­no que to­dos. Aos out­ros peix­es do al­to, ma­ta-​os o an­zol ou a fis­ga; a vós, sem fis­ga nem an­zol, ma­ta-​vos a vos­sa pre­sunção e o nos­so capri­cho. Vai o navio nave­gan­do e o mar­in­heiro dor­min­do, e o voador to­ca na vela ou na cor­da, e cai pal­pi­tan­do. Aos out­ros peix­es ma­ta-​os a fome e en­gana-​os a is­ca; ao voador ma­ta-​o a vaidade de voar, e a sua is­ca é o ven­to. Quan­to mel­hor lhe fo­ra mer­gul­har por baixo da quil­ha e viv­er, que voar por cima das an­te­nas e cair mor­to! Grande am­bição é que, sendo o mar tão imen­so, lhe não bas­ta a um peixe tão pe­queno to­do o mar, e queira out­ro el­emen­to mais largo. Mas vede, peix­es, o cas­ti­go da am­bição. O voador fê-​lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e per­mite o mes­mo Deus que ten­ha os peri­gos da ave e mais os de peixe. To­das as ve­las para ele são re­des, co­mo peixe, e to­das as cor­das laços, co­mo ave. Vê, voador, co­mo cor­reu pela pos­ta o teu cas­ti­go. Pouco há, na­davas vi­vo no mar com as bar­batanas, e ago­ra jazes em um con­vés, amor­tal­ha­do nas asas. Não con­tente com ser peixe, quis­es­te ser ave, e já não és ave nem peixe; nem voar poderás já, nem nadar. A na­tureza deu-​te a água; tu não quis­es­te senão o ar, e eu já te ve­jo pos­to ao fo­go. Peix­es, con­tente-​se ca­da um com o seu el­emen­to. Se o voador não quis­era pas­sar do se­gun­do ao ter­ceiro, não viera a parar no quar­to. Bem se­guro es­ta­va ele do fo­go quan­do na­da­va na água, mas, porque quis ser bor­bo­le­ta das on­das, vier­am-​se-​lhe a queimar as asas.

  À vista deste ex­em­plo, peix­es, tomai to­dos na memória es­ta sen­tença: «Quem quer mais do que lhe con­vém, perde o que quer e o que tem». Quem pode nadar, e quer voar, tem­po virá em que não voe nem nade. Ou­vi o ca­so de um voador da ter­ra. Simão Ma­go, a quem a arte mág­ica, na qual era famosís­si­mo, deu o so­brenome, fin­gin­do-​se que ele era o ver­dadeiro fil­ho de Deus, sinalou o dia em que nos ol­hos de to­da Ro­ma havia de subir ao céu; e com efeito começou a voar mui al­to; porém a oração de S. Pe­dro, que se acha­va pre­sente, voou mais de­pres­sa que ele, e cain­do lá de cima o Ma­go, não quis Deus que mor­resse lo­go, senão que, nos ol­hos tam­bém de to­dos, que­brasse, co­mo que­brou, os pés. Não quero que re­pareis no cas­ti­go, senão no género dele. Que ca­ia Simão, es­tá muito bem caí­do; que mor­ra, tam­bém es­taria muito bem mor­to, que o seu atre­vi­men­to e a sua arte di­abóli­ca o mere­ci­am. Mas que de uma que­da tão al­ta não rebente, nem qu