er­ta com o pe­so por to­das as cos­turas, in­ca­paz de fu­gir nem se de­fend­er, dari­am nas mãos dos corsários com per­da do que lev­avam e do que iam bus­car, se a lín­gua de An­tónio os não fizesse parar, co­mo rémo­ra, até que, alivi­ados da car­ga in­jus­ta, es­capassem do peri­go e tomassem por­to? Quan­tos, na nau «Sen­su­al­idade .. , que sem­pre nave­ga com sar­ração, sem sol de dia nem es­trela de noite, en­gana­dos do can­to das sereias, e deixan­do-​se levar da cor­rente, se iam perder cega­mente ou em Sila ou em Carib­des, onde não apare­cesse navio nem nave­gante, se a rémo­ra da lín­gua de An­tónio os não con­tivesse, até que es­clare­cesse a luz, e se pusessem em via? Es­ta é a lín­gua, peix­es, do vos­so grande pre­gador, que tam­bém foi rémo­ra vos­sa, en­quan­to o ou­vistes, e porque ago­ra es­tá mu­da (pos­to que ain­da se con­ser­va in­teira), se vêem e choram na ter­ra tan­tos naufrá­gios.

  Mas para que, da ad­mi­ração de uma tão grande vir­tude vos­sa, passe­mos ao lou­vor ou in­ve­ja de out­ra não menor, ad­miráv­el é igual­mente a qual­idade daque­le out­ro peix­in­ho, a que os Lati­nos chama­ram tor­pe­do. Am­bos estes peix­es con­hece­mos cá mais de fama que de vista; mas is­to têm as vir­tudes grandes, que quan­to são maiores, mais se es­con­dem. Es­tá o pescador com a cana na mão, o an­zol no fun­do e a bo­la so­bre a água; e em lhe pi­can­do na is­ca a tor­pe­do, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais ad­miráv­el efeito? De maneira que num mo­men­to pas­sa a vir­tude do peix­in­ho da bo­ca ao an­zol, do an­zol à lin­ha, da lin­ha à cana e da cana ao braço do pescador. Com mui­ta razão disse que este vos­so lou­vor o havia de referir com in­ve­ja. Quem de­ra aos pescadores do nos­so el­emen­to, ou quem lhe pusera es­ta qual­idade tremente em tu­do o que pescam na ter­ra! Muito pescam, mas não me es­pan­to do muito; o que me es­pan­ta é que pesquem tan­to e que tremam tão pouco. Tan­to pescar e tão pouco tremer!

  Pud­era-​se faz­er prob­le­ma: onde há mais pescadores e mais mo­dos e traças de pescar, se no mar ou na ter­ra? E é cer­to que na ter­ra. Não quero dis­cor­rer por eles, ain­da que fo­ra grande con­so­lação para os peix­es; bas­ta faz­er-​se a com­para­ção com a cana, pois é o in­stru­men­to do nos­so ca­so. No mar pescam as canas, na ter­ra pescam as varas (e tan­ta sorte de varas!): pescam as gi­nates, pescam as ben­galas, pescam os bastões e até os cep­tros pescam, e pescam mais que to­dos, porque pescam cidades e reinos in­teiros. Pois é pos­sív­el que, pes­can­do os home­ns coisas de tan­to pe­so, lh­es não trema a mão e o braço? Se eu pre­gara aos home­ns e tivera a lín­gua de San­to An­tónio, eu os fiz­era tremer. Vinte e dois pescadores destes se acharam aca­so a um ser­mão de San­to An­tónio, e as palavras do San­to os fiz­er­am tremer a to­dos, de sorte que to­dos tremen­do se lançaram aos seus pés, to­dos tremen­do con­fes­saram seus fur­tos, to­dos tremen­do resti­tuíram o que po­di­am (que é is­to o que faz tremer mais neste peca­do que nos out­ros), to­dos en­fim mu­daram de vi­da e de ofí­cio, e se emen­daram. 

  Quero acabar este dis­cur­so dos lou­vores e vir­tudes dos peix­es com um que não sei se foi ou­vinte de San­to An­tónio e apren­deu dele a pre­gar. A ver­dade é que me pre­gou a mim, e se eu fo­ra out­ro, tam­bém me con­vert­era. 

  Nave­gan­do daqui para o Pará (que é bem que não fiquem de fo­ra os peix­es da nos­sa cos­ta), vi cor­rer pela tona da água de quan­do em quan­do, a saltos, um car­dume de peix­in­hos que não con­hecia; e, co­mo me dissessem que os por­tugue­ses lh­es chamavam qua­tro-​ol­hos, quis averiguar oc­ular­mente a razão deste nome, e achei que ver­dadeira­ment