Title: Três Meses em Calecut “Primeira Crónica dos Estados da Índia (1498)”
Author: Alexandre Herculano
CreationDate: Thu Jul 30 15:31:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Apr 22 03:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Três Meses em Cale­cut “Primeira Cróni­ca dos Es­ta­dos da Ín­dia (1498)”

  Alexan­dre Her­cu­lano

  Três Meses em Cale­cut foi ex­traí­do do livro Lendas e Nar­ra­ti­vas, in­te­gra­do nas Obras Com­ple­tas de Alexan­dre Her­cu­lano e ed­ita­do pela Ed­ito­ra Bertrand, que gen­til­mente au­tor­izou a sua pub­li­cação.

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-18-X

  Lis­boa, Out­ubro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  TRÊS MESES EM CALE­CUT

  I. O quar­to da modor­ra

  Vas­co da Gama tin­ha atrav­es­sa­do o golfão, que di­vide a África Ori­en­tal da cos­ta da Ín­dia, e haven­do-​se de­mor­ado três meses em Cale­cut, volta­va para Por­tu­gal, deixan­do de­scober­to o Ori­ente. 

  Era na noite ime­di­ata àquela em que a fro­ta lev­an­tara fer­ro da en­sea­da de Cale­cut: ape­nas so­pra­va um bafo de ter­ren­ho, que de dia ces­sa­va in­teira­mente, ou salta­va da ban­da do mar. A nau capitâ­nia, o S. Gabriel, aprovei­tan­do o ven­to, seguia vi­agem ao lon­go da cos­ta, e o S. Rafael e o Bér­rio iam na sua es­teira.

  Ao sair de Cale­cut, obra de se­ten­ta bar­cos tin­ham vin­do em som de guer­ra come­ter a ar­ma­da: al­guns tiros de bom­bar­da e uma tro­voa­da, que deu so­bre eles, os fez recol­her para ter­ra: mas al­gum no­vo in­sul­to po­dia ser ten­ta­do pe­los mouros de Cale­cut, con­spir­ados con­tra os por­tugue­ses: Vas­co da Gama or­denara por­tan­to a maior vig­ilân­cia a bor­do de to­dos os navios. 

  Chega­va o quar­to de modor­ra: a brisa da ter­ra so­pra­va lev­emente, e ape­nas se ou­via o mur­múrio das on­das fer­ven­do de­baixo das proas, o sono começa­va a quer­er cer­rar as pálpe­bras dos home­ns de quar­to da nau S. Gabriel. Vi­giavam en­tão, en­tre out­ros, o in­tér­prete Fer­não Mar­tins, Ál­varo de Bra­ga, João de Sá, Ál­varo Vel­ho e um mar­in­heiro chama­do Gonça­lo Pires, cri­ado do capitão-​mor. 

  -Ora-​sus! -disse Ál­varo de Bra­ga. -Ol­hai por vós se dormis! Pode er­guer-​se o capitão-​mor de súbito: e não quero eu es­tar-​vos na pele, se vos achar de­scuida­dos. 

  -Bofé que ai pode­mos nós faz­er -tornou Gonça­lo Pires -cor­ta­dos co­mo an­damos do cansaço e tra­bal­ho? Se os mouros ou os cristãos da ter­ra vierem nas suas bar­cas, não es­tão as bom­bar­das que­bradas, e far-​lh­es-​emos um bom con­vite: me­do não tive eu a es­sa gente, quan­do lh­es es­tá­va­mos nas mãos; menos lh­es terei ago­ra, que temos aí para os servir boas pan­elas de pólvo­ra.

  -Au­daces for­tu­na ju­vat. A for­tu­na so­corre os ou­sa­dos disse Fer­não Mar­tins, que, co­mo in­tér­prete e sabedor de lín­guas, cita­va muitas vezes la­tim e árabe, ten­do con­tu­do 

  o cos­tume de traduzir lo­go os seus tex­tos em por­tuguês cor­rente, pren­da ain­da ho­je rarís­si­ma em pes­soas atre­itas a citações. 

  -A nau aguça de ló -gri­tou Pêro de Alen­quer, que tin­ha es­ta­do até en­tão en­costa­do à amu­ra­da com os ol­hos crava­dos no céu. -Ar­ri­ba para o mar! Pode por barlaven­to jaz­er al­gu­ma restin­ga; que estes mares não têm os par­céis ar­ru­ma­dos. 

  Es­tas palavras do pi­lo­to-​mor afu­gen­taram por um pouco o sono dos ol­hos dos mar­in­heiros; e en­quan­to os home­ns do leme fazi­am ar­rib­ar a nau, ou­via-​se-​lh­es o ru­mor dos pas­sos que davam passe­an­do ao lon­go do con­vés. 

  No chapitéu de ré es­ta­va as­sen­ta­do uma es­pé­cie de cav­alete, so­bre o qual havia um in­s