tru­men­to, mis­te­rioso ain­da para a chus­ma da nau, com o qual, diziam Vas­co da Gama e Pêro de Alen­quer, ar­ru­mavam as al­turas e ousavam nave­gar ao largo: era um as­trolábio. Muitos havi­am aí, que vi­am neste in­stru­men­to, obra de dois judeus e de um boémio, uma in­venção di­abóli­ca; mas os mar­in­heiros en­ten­di­dos e vel­hos ri­am-​se des­ta su­per­stição da chus­ma. 

  Co­mo na bitácu­la es­ta­va ace­sa uma can­deia, e no con­vés não havia out­ra luz, os home­ns do quar­to que não es­tavam de vi­gia no caste­lo de proa foram subindo ao da popa e se as­sen­taram en­tre o as­trolábio e a bús­so­la, para que o re­flexo da luz os con­ser­vasse des­per­tos. 

  -Parece-​me -começou Ál­varo de Bra­ga -que voltare­mos a Por­tu­gal, se a Deus aprou­ver, sem mais ou­vir­mos ladrar estes per­ros de Cale­cut. -E dizen­do is­to se as­sen­ta­va, e ao pé dele os out­ros que de­balde pre­tendi­am re­si­stir à modor­ra de an­te­man­hã. 

  João de Sá, que até aí es­tivera cal­ado, sor­riu-​se e disse: 

  -Com razão chamais vós per­ros a es­sa can­zoa­da de Cale­cut, que tan­tas per­rarias nos fiz­er­am. Bas­ta­va o terem-​vos feito ado­rar di­abos, me­tendo-​vos em cabeça que er­am san­tos. Ao menos nes­sa não cri eu, ape­sar da de­voção do capitão-​mor.

  Pro­nun­cian­do es­tas palavras, João de Sá da­va mostras de ufa­nia por ter si­do mais es­per­to do que os seus com­pan­heiros, mais man­hoso do que o mes­mo Vas­co da Gama. As suas palavras, nestes tem­pos de crença vi­va, er­am um epi­gra­ma de­masi­ado pun­gente para os que tin­ham ido a ter­ra: e a maior parte dos que se achavam jun­to dele er­am deste número. 

  -Por min­has bar­bas -tornou Ál­varo de Bra­ga -que vós sois ma­treiro: mas por­ven­tu­ra não mel­hor cristão do que es­sa gente! Com que, dom sandeu, já vos parece ado­ração do di­abo o ado­rar a Virgem Maria e os san­tos, o tomar água ben­ta e o re­ce­ber a cin­za dos mor­tos? 

  -Em ver­dade -repli­cou João de Sá -; porque ou­vistes falar em Maria, crestes lo­go que era a Virgem; porque vistes meia dúzia de demónios pin­ta­dos pelas pare­des com muitos braços e grandes dentes, tiveste-​los em con­ta de san­tos; a uma pou­ca de água sem sal chamastes água ben­ta, e um pouco de bar­ro, que vos de­ram para pôr na tes­ta, tomaste-​o por cin­za de de­fun­tos! Eu serei sandeu, mas cer­to que aí há quem o se­ja mais do que eu o sou. 

  Fer­não Mar­tins abana­va a cabeça em ar de quem aprova­va o di­to. 

  -Serão cristãos -disse por fim mas tam­bém eu não o creio. Cre­dat judeus apel­la; non ego. Creia-​o o judeu; não eu. 

  Voltan­do-​se en­tão para João de Sá e para Fer­não Mar­tins, Ál­varo Vel­ho fez sinal com a mão de que pre­tendia falar: ele fo­ra um dos que em ter­ra nun­ca se afas­taram de Vas­co da Gama; pas­sa­va além dis­so por dis­cre­to e ob­ser­vador; e a pri­vança e en­tra­da que tin­ha com o capitão-​mor lhe da­va cer­ta con­sid­er­ação en­tre os de­mais mar­in­heiros. To­dos es­per­avam pe­lo que diria, com o silên­cio da cu­riosi­dade, e por­ven­tu­ra da corte­sia. 

  -Se vós tivés­seis aten­ta­do pe­lo que vistes, co­mo eu aten­tei; se tivés­seis con­ver­sa­do os nat­urais, co­mo eu con­ver­sei, teríeis mel­hor jul­ga­do dos seus cos­tumes e da sua fé. Ain­da que afas­ta­dos da pureza da nos­sa re­ligião, não deix­am por is­so de ser cristãos. Afo­ra os sinais da boa crença que to­dos vi­mos nos seus tem­plos, os quafes ou sac­er­dotes me falaram da Trindade, e em si trazi­am os em­ble­mas dela. Muitos me as­sev­er­aram que, além de Cale­cut por nos­sa popa, fi­cam muitos e poderosos reinos que seguem a fé cristã. Is­to tu­do notei no livro, em que já ten­ho es­crito o pro­ces­so des­ta vi­agem