 e de­pois de amar­rares bem as naus farás de­sem­bar­car is­so que de tua ter­ra troux­este. 

  «Com is­to nos de­sped­imos: Monçaide veio connosco até à pou­sa­da; e pe­lo cam­in­ho nos rev­el­ou que os mouros ur­diam larga tra­ma para nos haverem de perder: Vas­co da Gama, que bem perce­bia o risco em que nos achá­va­mos, fi­cou to­do aque­le dia tac­iturno, e com as­pec­to car­rega­do. 

  Fer­não Mar­tins calou-​se neste pon­to, e Ál­varo Vel­ho, pe­gan­do out­ra vez no manuscrito, seguiu avante na sua leitu­ra: 

  «No out­ro dia par­ti­mos para Pan­darane, e ape­sar de nos per­der­mos uns dos out­ros no cam­in­ho, chegá­mos fi­nal­mente aos es­taus, em que Vas­co da Gama nos es­per­ava para em­bar­car­mos: era per­to da noite; ped­imos uma al­ma­dia, mas o cat­ual re­cu­sou-​a, com o pre­tex­to de que era mui tarde. En­tão a cólera do capitão-​mor reben­tou co­mo uma tor­rente: acu­sou o cat­ual de traidor; ameaçou-​o de que voltaria a Cale­cut para se queixar a el-​rei; e Bon­tai­bo, que traduzia na lin­guagem dos ín­dios as palavras de Vas­co da Gama, ex­ager­ava ain­da, por­ven­tu­ra, as suas ex­pressões de de­speito: temeu, ou fin­giu temer, o cat­ual o furor do capitão por­tuguês, e re­spon­deu, que em vez de uma al­ma­dia, daria trin­ta, se tan­tas nós pre­tendêsse­mos. 

  «Saí­mos ao lon­go da pra­ia: havia muito que o Sol tin­ha de­sa­pare­ci­do no oci­dente; nen­hu­ma bar­ca por ali jazia; e o capitão, re­ceoso de al­gu­ma cila­da, man­dou Gonça­lo Pires, com mais dois home­ns, adi­ante, que se en­con­trassem Paulo da Gama, seu ir­mão, com os batéis abi­ca­dos em ter­ra, lhe dissessem que saísse lo­go para as naus; porque em ter­ra cor­re­ria risco. 

  «Os home­ns não tornaram; e far­tos de bus­car em vão bar­cos, que nos con­duzis­sem a bor­do de nos­sos navios, tive­mos de voltar à povoação, onde passá­mos a noite em casa de um mer­cador mouro. 

  «Na man­hã seguinte, a traição, até aí en­cober­ta, se paten­teou clara­mente. Exi­gi­ram de Vas­co da Gama que man­dasse aprox­imar as naus à ter­ra: re­cu­sou ele fazê-​lo; e en­tão lhe declarou o cat­ual, que sem is­so não tornar­ia a pôr os pés den­tro de­las. 

  «Soltar palavras ásperas era quan­to podíamos faz­er em nos­sa de­fe­sa; mas os sinais de cólera só acar­retaram so­bre nós es­cárnios. Os mouros e ín­dios, que connosco es­tavam, diziam, rindo, que podíamos par­tir para Cale­cut, ou para nos­sos navios, co­mo mel­hor nos aprou­vesse; mas as por­tas se havi­am cer­ra­do, e nós es­tá­va­mos cer­ca­dos de na ires ar­ma­dos, que cuida­dosa­mente nos guar­davam. 

  «Por fim o cat­ual exi­gia só que as ve­las e leme dos navios fos­sem trazi­dos para ter­ra: com is­to, dizia ele, abrir-​se-​nos-​ia cam­in­ho fran­co, dar-​se-​nos-​ia uma al­ma­dia, para nos recol­her­mos a bor­do. Vas­co da Gama, porém, re­cu­sou con­stante qual­quer condição para a sua par­ti­da, que el-​rei lhe con­ced­era sol­ta e livre. 

  «No meio destas dis­putas, Gonça­lo Pires voltou, e nos disse que en­con­trara Nico­lau Coel­ho, capitão do Bér­rio, com os batéis aproa­dos em ter­ra, o qual ali o es­per­ava. Com a aju­da de Bon­tai­bo saiu en­tão um dos nos­sos dis­farça­do, e foi avis­ar Nico­lau Coel­ho de que fugisse sem demo­ra: os mouros o perce­ber­am, bem que tarde, e man­daram muitas al­ma­dias após os batéis; mas es­tas não os pud­er­am al­cançar. 

  «En­tão recor­reram à mais di­abóli­ca das ten­tações para abalar nos­sa con­stân­cia. Sen­tíamo-​nos des­fale­cer à mín­gua; e por mais que pedíamos nos trouxessem com que matar a fome, as nos­sas sú­pli­cas er­am para eles no­va matéria de riso, e de pun­gentes es­cárnios. 

  «Eter­no nos pare­ceu este dia de con