 to­dos aque­les que vin­ham mer­cade­jar a seus por­tos. 

  «Dio­go Dias fo­ra deix­ado em ter­ra com Ál­varo de Bra­ga, para feitor­izarem as mer­cado­rias, que se havi­am de­sem­bar­ca­do; e aí de­vi­am ficar até a vol­ta de no­va ar­ma­da. Ou­vi­da a de­ter­mi­nação de el-​rei, tornou à casa onde mora­va, re­solvi­do a vir a bor­do re­latar a Vas­co da Gama o que suced­era; ao chegar à pou­sa­da viu-​a rodea­da de home­ns ar­ma­dos: en­trou, e jun­ta­mente com o seu com­pan­heiro foi reti­do nela pe­los naires, en­quan­to pela cidade se lançavam, co­mo de­pois con­tou Bon­tai­bo, temerosos, pregões, para que ninguém da cidade tivesse co­mu­ni­cação com a ar­ma­da, 

  «Fe­liz­mente um moço ne­gro, que com eles es­ta­va, pôde es­capar à vig­ilân­cia das guardas: cor­reu à pra­ia: a noite começa­va a cer­rar-​se; nen­hu­ma bar­ca o quis tomar, até que, já cansa­do de an­dar ao lon­go da cos­ta, achou no ex­tremo da cidade uns pescadores, que a tro­co de al­gum din­heiro o con­duzi­ram a bor­do, fug­in­do out­ra vez para ter­ra en­cober­tos pe­lo es­curo, com re­ceio de serem sev­er­amente punidos.

  «Pas­sou-​se o seguinte dia, sem que uma só bar­ca viesse aos navios: em con­ta de per­di­dos tín­hamos Dio­go Dias e Ál­varo de Bra­ga, Na man­hã ime­di­ata -era o dia da As­sunção da Virgem -os vi­gias do S. Gabriel vi­ram aprox­imar-​se uma al­ma­dia: chegaram a bor­do qua­tro ín­dios que davam mostras de quer­erem vender-​nos pe­dras pre­ciosas: deixaram-​nos subir; e Vas­co da Gama, fin­gin­do ig­no­rar a prisão dos feitores, os acol­heu, co­mo se es­tivésse­mos em boa paz com seu rei: e por eles man­dou uma car­ta a Dio­go Dias pe­lo teor da qual mostrá­va­mos não saber o que suced­era em ter­ra. 

  «Is­to enganou os de Cale­cut, que começaram a vir a bor­do com fre­quên­cia, até que no domin­go seguinte chegou uma al­ma­dia com seis mer­cadores, que, pela riqueza do tra­jo, pare­ci­am pes­soas prin­ci­pais: tan­to que estes subi­ram, Vas­co da Gama os man­dou pren­der, e mais doze home­ns dos que com eles vin­ham, en­vian­do pe­los out­ros uma car­ta ameaçado­ra ao samor­im, na qual dizia que pe­los dois por­tugue­ses, que deix­ava na Ín­dia, lev­ava em re­féns estes mer­cadores, uma vez que lo­go não lhe fos­sem os seus resti­tuí­dos. De­pois lev­an­tá­mos fer­ro, e co­mo o ven­to era con­trário, andá­mos qua­tro dias bor­de­jan­do na en­sea­da, fun­de­an­do, fi­nal­mente, à es­pera do ven­to, tan­to ao mar que não víamos a ter­ra. 

  -Ago­ra, sen­hor Ál­varo -disse Ál­varo Vel­ho para o de Bra­ga -, a vós to­ca referir o que com Dio­go Dias pas­sastes, quan­do vos deixá­mos nas mãos daque­les per­ros. 

  E Ál­varo de Bra­ga disse: 

  -Lo­go que em Cale­cut se es­pal­hou a no­va de que vós out­ros éreis já ao largo, as mul­heres e fil­hos dos que tín­heis cativos cor­reram ao paço, fazen­do grandes pran­tos; a sua aflição, que abran­gia a mui­ta gente, por serem aque­les mer­cadores dos prin­ci­pais, co­moveu o ân­imo de el-​rei, que nos man­dou chamar, mostran­do-​se muito ira­do con­tra o cat­ual, e or­de­nan­do que fôsse­mos am­bos pos­tos em liber­dade: "Em na­da sou cul­pa­do de quan­to vos acon­te­ceu -disse ele a Dio­go Dias. -Ide diz­er a vos­so capitão que me solte meus vas­sa­los; e tu podes voltar a ter­ra para ne­go­ciar a fazen­da que aí ten­des: para pro­va de que de­se­jo a boa amizade dos Por­tugue­ses es­creverei a meu ir­mão D. Manuel, e será em sua própria lin­guagem." En­tão Bon­tai­bo, que aí fo­ra chama­do por in­tér­prete, deu uma ola, ou fol­ha de palmeira, a Dio­go Dias, que nela es­creveu com uma pe­na de fer­ro a car­ta que o samor­im di­tou para el-​rei de Por­tu­gal, e que ele trouxe ao ca