to cristão da Ín­dia, que nos de­ra o rei de Melinde, en­costa­do ao leme da nau pare­cia in­qui­eto: ora er­guia os ol­hos ao céu; ora os fi­ta­va em nós; en­fim disse a Fer­não Mar­tins em sua al­gar­avia, que nos per­gun­tasse se víamos al­gu­ma cousa no hor­izonte ... 

  -Al­to lá, sen­hor Ál­varo Vel­ho! -atal­hou Fer­não Mar­tins. -Não foi em sua lin­guagem que ele mo per­gun­tou, dom ledor; mas em pu­ra ar­avia; e im­por­ta sabais que a ar­avia se dis­tingue da lín­gua da Ín­dia co­mo o por­tuguês da fala dos In­gle­ses…

  O bom do trugimão ia aqui faz­er uma dis­ser­tação ac­er­ca das di­ver­sas lín­guas, tal que se ele a con­tin­uasse, e al­guém a pudesse es­cr­ev­er, teríamos uma obra, que deixaria no es­curo o Mun­do Prim­iti­vo, de Court de Gebe­lin: mas um lon­go ciô!, saí­do ao mes­mo tem­po da bo­ca de to­dos os ou­vintes, lhe deu um pon­to na bo­ca; bem co­mo uma risa­da ger­al da plateia faz emude­cer no tabla­do o ac­tor que dis­para aos es­pec­ta­dores uma as­neira in­es­per­ada, ou sua, ou do abril­han­ta­dor da ce­na, a quem o vul­go na sua lín­gua gros­seira, mas castiça, chama au­tor da comé­dia. 

  Ál­varo Vel­ho con­tin­uou a sua leitu­ra: 

  «A es­ta per­gun­ta de Canacá to­dos nós alongá­mos os ol­hos pe­lo hor­izonte, e no ter­mo dele, pela nos­sa proa, nos pare­ceu di­vis­ar uma nevoaz­in­ha que grad­ual­mente cres­cia, en­grossa­va, e ene­gre­cia: era uma névoa in­cer­ta a nos­sa es­per­ança, mas es­ta se desvane­cia quan­do nos lem­brá­va­mos que havia três dias que, de ho­ra a ho­ra, de in­stante a in­stante, ilusões semel­hantes vin­ham afig­urar-​nos próx­imas es­sas pra­ias, aonde iam bater to­dos os nos­sos de­se­jos, con­stân­cia e tra­bal­hos; es­sas pra­ias da Ín­dia, cu­jo nome era para nós co­mo um primeiro amor, co­mo um son­ho for­moso de madru­ga­da, co­mo um eflúvio do paraí­so; ri­co de fu­turas grandezas, para nós e para o vel­ho Por­tu­gal: ain­da no dia an­tecedente tín­hamos vis­to uma som­bra semel­hante no hor­izonte, mas ela não deixara de o ser; e ao pôr do Sol se havia re­solvi­do em na­da. De­scorçoa­dos, pois, e com os ol­hos pre­ga­dos no ex­tremo dos mares azuis, não re­spondíamos na­da à per­gun­ta do pi­lo­to ín­dio.

  «"Ter­ra'" -bradou o gajeiro imóv­el no ces­to da gávea.

  «A nu­ven­zin­ha crescera lá no ex­tremo hor­izonte. Pro­lon­ga­va-​se para os la­dos co­mo uma bar­reira que cer­ca­va por aque­la ban­da: a nau sur­dia sem­pre avante; e por fim quais­quer ol­hos in­ex­pe­ri­entes pode­ri­am con­hecer a prox­im­idade de um con­ti­nente ex­ten­sís­si­mo. Um agua­ceiro pe­sa­do no-​lo veio en­co­brir quan­do dele es­tá­va­mos dis­tantes obra de oito léguas. O Sol. ver­mel­ho e já sem bril­ho, pare­cia dançar so­bre as águas, lá no fun­do do oci­dente, e a es­curidão, que do ori­ente nos vin­ha, se tor­na­va ca­da vez mais den­sa, com as nu­vens acaste­ladas, que der­ra­mavam tor­rentes de chu­va so­bre a nos­sa pe­que­na ar­ma­da. 

  «Era necessário vi­rar de bor­do: fo­ra perigoso en­tes­tar com a ter­ra, onde no meio das trevas, os navios se po­di­am faz­er pedaços: a um sinal do mestre da nos­sa nau os mar­in­heiros cor­reram a seus mis­teres: a nau endi­re­itou para o su-​sueste; e den­tro de pouco tu­do en­trou no silên­cio. 

  «Que noite aque­la!, quão lon­ga nos pare­ceu! Semel­hantes ao árabe, de que falam as trovas mouriscas, que, abrasa­do de sede no meio de seus pátrios areais, crê ver em dis­tân­cia um la­go abun­dante, que ape­nas é um re­flexo men­ti­do do Sol, as­sim nós, no son­har de noite pro­fun­da, afig­urá­va­mos na nos­sa imag­inação es­tar já pou­sa­dos na ter­ra que víramos ao longe, e trans­portá­va­mos para ess