es país­es de­scon­heci­dos o nos­so Por­tu­gal: er­am os seus montes, os seus vales, as suas plan­tas e fru­tos, as suas cidades e aldeias, que lá plan­tá­va­mos: era o tra­jo, o gesto, a lin­guagem dos Por­tugue­ses, que lá víamos e ou­víamos: e des­pertá­va­mos de­pois; e achá­va­mo-​nos pe­los re­can­tos da amu­ra­da, com a cabeça en­costa­da a uma bom­bar­da fria e ne­gra, ou a um cabo de amar­ra, quase co­mo ela duro e frio, sentin­do o balouçar da nau, e o soí­do das águas roçan­do ráp­idas pe­lo costa­do dela, e o fragor dos marul­hos saltan­do pe­los es­cov­éns da proa. Torná­va­mos a adorme­cer, e lo­go a des­per­tar; e as­sim coá­va­mos es­ta noite que pare­cia não ter fim. Ao toque de alvo­ra­da ninguém es­ta­va deita­do: subi­mos ao con­vés, e um es­pec­tácu­lo, qual nun­ca pere­gri­no viu, nem se­quer febric­itante son­hou em seus desvar­ios, es­ta­va di­ante de nós!

  «Cor­ríamos com ven­to fres­co ao lon­go da cos­ta: mon­tan­has al­tís­si­mas, que a vão acom­pan­han­do, so­bran­ceiras a ela, de norte a sul, e que de­pois soube­mos se chamavam as ser­ras de Gate, campeavam ao longe cober­tas de nu­vens, re­flectin­do a clar­idade da man­hã com uma cor azu­la­da: por en­tre ar­vore­dos alve­javam as povoações marí­ti­mas, e re­flex­os metáli­cos que vin­ham ferir os nos­sos ol­hos nos cer­ti­fi­cavam de que aí havia coruchéus e tec­tos co­zi­dos em ouro. O Ori­ente nos apare­cia, en­fim, semel­hante à im­agem que já em Por­tu­gal se nos rep­re­sen­ta­va desse país de mar­avil­has. 

  «Canacá nos apon­tou para ter­ra e bradou: "Cale­cut! Cale­cut!" Es­tá­va­mos a cur­ta dis­tân­cia da pra­ia, e víamos que­brar nela os grossos ro­los das va­gas. Três povoações jazi­am lançadas naque­la cos­ta: Cale­cut, Capoc­ate e Pan­darane: o pi­lo­to tomara a se­gun­da pela primeira, e só soube­mos que se en­ga­nara, quan­do já tín­hamos lança­do fer­ro. Víamos ao norte Cale­cut, Pan­darane nos fi­ca­va ao sul; di­ante de nós es­ta­va a povoação de Capoc­ate. 

  «Qua­tro bar­cas de­sa­fer­raram de ter­ra e vier­am abor­dar às naus. Os home­ns que as guarne­ci­am nos encher­am de es­pan­to; que em to­da a nos­sa der­ro­ta nen­huns semel­hantes en­con­tráramos: al­gu­ma pare­cença tin­ham com Canacá; mas este, se­gun­do o que nos dis­sera, nascera muito ao norte da Ín­dia, e o seu gesto se difer­ença­va muito da gente que ora víamos: a cor destes era baça: nus da cin­ta para cima o sol lh­es havia cresta­do o cor­po, e lho tornara ain­da mais baço: lon­gos bigodes pen­di­am pelas faces abaixo de al­guns: estes trazi­am a cabeça ra­pa­da, ou tosquia­da, de­scen­do-​lh­es do al­to dela uma lon­ga e del­ga­da trança: um ou dois vi­mos de ca­be­los e bar­bas cresci­das, mas a causa des­ta difer­ença não a pude­mos en­ten­der.

  «Es­tá­va­mos co­mo pas­ma­dos. Al­guns destes home­ns subi­ram ao con­vés do S. Gabriel, e Canacá lh­es falou: er­am pescadores, gente po­bre, ou mesquin­ha, co­mo em sua lin­guagem lh­es chamam ... 

  -E de que vós em vos­sas dis­putas tão a miú­do vos servis para chamardes uns aos out­ros vis refe­ces -atal­hou Fer­não Mar­tins, que não tin­ha ân­imo para perder vez de faz­er ob­ser­vações filológ­icas. -Grande de­pravação es­pero eu tra­ga a nos­sos bons cos­tumes este de­sco­bri­men­to da Ín­dia; porém não é esse o maior mal: o grande, o grandís­si­mo, o que me faz tremer é que o tra­to com es­tas nações bár­baras ven­ha a cor­romper a for­mosa lin­guagem por­tugue­sa. 

  Os cir­cun­stantes, que na­da en­ten­di­am de pri­mores de lín­gua, sor­ri­am-​se das re­flexões de Fer­não Mar­tins; e até se ou­vi­ram em voz baixa es­tas palavras, que pare­ci­am pro­nun­ci­adas por en­tre