 dentes, cer­ra­dos pela cólera:

  -Mesquin­ho lín­gua, quan­do irás tu para o in­fer­no! 

  O in­tér­prete ia re­spon­der ao mal en­si­na­do que as­sim o trata­va; mas um se­gun­do ciô! ger­al o fez calar, e Ál­varo Vel­ho con­tin­uou: 

  «Por estes home­ns é que soube­mos qual daque­las povoações era Cale­cut: com­prá­mos-​lh­es al­gum pesca­do, e por fim foram-​se em­bo­ra: nós en­tão, aprovei­tan­do a brisa fres­ca da tarde, fo­mos lançar fer­ro na en­sea­da da cidade. 

  «A man­hã do domin­go surgiu bela e pu­ra: os ares es­tavam limpos: o Sol der­ra­ma­va tor­rentes de luz so­bre Cale­cut: víamos as ruas, os ter­reiros, os tem­plos, os palá­cios. As habitações co­muns er­am de madeira pin­ta­da, os tec­tos er­am de fol­has de palmeira; mas no meio dis­to havia ed­ifí­cios de pe­dra, dos quais uns pare­ci­am paços reais; out­ros sump­tu­osas igre­jas: para um e out­ro la­do da povoação, e no topo, para a ban­da da ser­ra, vi­am-​se cam­pos cul­ti­va­dos, bosques de palmeiras, e de ár­vores ro­bus­tas, cu­ja es­pé­cie era de­scon­heci­da na Eu­ropa. Em­be­bidos es­tá­va­mos na con­tem­plação deste no­vo mun­do, que, semel­hante a um imen­so e riquís­si­mo pano de rás, se de­sen­rola­va di­ante de nos­sos ol­hos, quan­do al­gu­mas bar­cas pare­ci­das com as da véspera, e a que nes­ta ter­ra chamam al­ma­dias (aqui Ál­varo Vel­ho lançou rap­ida­mente os ol­hos para Fer­não Mar­tins, e sor­riu-​se) par­ti­ram de ter­ra a de­man­dar as naus. Tan­to que chegaram, os que as guiavam subi­ram aci­ma, e de tu­do o que vi­am só nos­sos tra­jos e ar­mas os enchi­am de as­som­bro: bem trata­dos por nós, eles se mostraram come­di­dos e corte­ses, e quan­do par­ti­ram o capitão-​mor man­dou com eles um dos degrada­dos que lev­áva­mos, para servirem nes­tas ar­riscadas men­sagens: eis o que lhe sucedeu, con­forme de sua bo­ca ou­vi.

  «Ape­nas chega­do a ter­ra con­duzi­ram-​no a casa de dois home­ns que lhe pare­ce­ram mer­cadores. Lo­go pe­lo seu as­pec­to con­heceu que eles er­am es­trangeiros naque­le país: um dos mer­cadores ol­hou para ele, e ex­clam­ou em mau es­pan­hol: Os di­abos te lev­em! Quem te trouxe aqui? Con­tou-​lh­es en­tão o por­tuguês o pro­ces­so da nos­sa vi­agem, e que vín­hamos em bus­ca de cristãos e das es­pe­cia­rias do Ori­ente. "E porque não man­da cá -in­ter­romper­am os mer­cadores -el-​rei de Castela, el-​rei de França, ou a sen­ho­ria de Veneza?" "Porque el-​rei meu sen­hor não o con­sen­ti­ra" -foi a re­spos­ta por­tugue­sa do degrada­do. En­tão os mer­cadores lhe dis­ser­am que er­am mouros de Tunes, que tin­ham vin­do à Ín­dia por causa de seus comér­cios, e que havi­am feito as­sen­to em Cale­cut. Nes­ta dis­tân­cia imen­sa das suas re­spec­ti­vas pá­trias os mouros de Berbe­ria e o cristão de Por­tu­gal se con­sid­er­avam quase co­mo con­ter­râ­neos. De­pois de lhe darem de com­er, o degrada­do voltou aos navios, e com ele um dos mouros, que se chama­va Bon­tai­bo ... 

  -Quan­tas vezes quereis que vos di­ga que o seu ver­dadeiro nome é Monçaide? -in­ter­rompeu Fer­não Mar­tins. -Sois ca­pazes de es­tra­gar, em menos de um cre­do, um vo­cabuário in­teiro. 

  -Bon­tai­bo, ou Monçaide, co­mo quis­erdes -re­spon­deu Ál­varo Vel­ho -, que is­so pouco faz ao dis­cur­so da min­ha história: ele aí vem connosco, e tan­to acode por esse nome que vós, o capitão-​mor, Pêro de Alen­quer e o gajeiro de proa lhe dais, pois sois dis­cre­tos, co­mo por estoutro, que geral­mente lhe damos nós out­ros, rudes mar­in­heiros. 

  Es­ta iro­nia de Ál­varo Vel­ho, em quem to­dos re­con­heci­am ciên­cia e in­strução não vul­gar, ape­sar de sua hu­milde condição, fez calar o lo­quacís­si­mo in­tér­p