rete; e ele prosseguiu: 

  «Ape­nas o mouro saltou no con­vés, to­dos nós o rodeá­mos: "Boa ven­tu­ra, boa ven­tu­ra!" -nos disse ele em por­tuguês trava­do de castel­hano. "Muitos ru­bis, muitas es­mer­al­das! Graças de­veis dar a Deus por vos traz­er a ter­ra onde há tan­ta riqueza." Ou­víamo-​lo falar, e não podíamos cr­er em nos­sos ou­vi­dos. Pare­cia-​nos um son­ho, que a tan­tos cen­tenares de léguas de Por­tu­gal ex­is­tisse quem falasse nos­sa lín­gua; quem nos pudesse en­ten­der. Ir­mão nos­so era dali avante um tal homem, em­bo­ra na sua fronte não hou­vesse o sinal do cris­tian­is­mo, e os seus lábios só soubessem pro­nun­ciar as blas­fémias do Al­corão.

  «Por Bon­tai­bo soube­mos que el-​rei de Cale­cut es­ta­va afas­ta­do da cap­ital. Man­dou o capitão-​mor dois men­sageiros [dos quais um foi Fer­não Mar­tins] que lhe fos­sem anun­ciar a vin­da daque­la ar­ma­da, e co­mo ele Vas­co da Gama era em­baix­ador de el-​rei de Por­tu­gal. cu­jas car­tas lhe ap­re­sen­taria. Re­ce­bi­da pe­lo rei de Cale­cut es­ta men­sagem, man­dou diz­er a Vas­co da Gama que ele voltaria lo­go à cidade para o re­ce­ber, e fazen­do mer­cê de muitas dá­di­vas aos dois men­sageiros, en­vi­ou com eles um pi­lo­to, que con­duzisse a ar­ma­da para a en­sea­da de Pan­darane, onde achari­am mel­hor fun­do do que na de Cale­cut, suma­mente aparce­la­da e perigosa.

  «Pre­tendia o pi­lo­to que en­trásse­mos no por­to; mas o capitão pru­den­te­mente man­dou que surgísse­mos fo­ra. Tín­hamos ape­nas lança­do fer­ro, quan­do chegou avi­so de el-​rei para que de­sem­bar­casse o em­baix­ador de Por­tu­gal, a quem ele em Cale­cut es­per­ava. Mas o dia já se in­cli­na­va a seu ter­mo, e por is­so Vas­co da Gama as­sen­tou em de­sem­bar­car no dia seguinte, até porque po­dia aproveitar o in­ter­va­lo da noite para faz­er con­sel­ho com os capitães da ar­ma­da so­bre o mo­do por que se de­via haver em tão del­ica­da con­jun­tu­ra.

  III. A em­baix­ada

  «Aman­heceu, fi­nal­mente, de­pois de uma noite in­teira pas­sa­da em prepar­ativos, o dia de se­gun­da-​feira, vinte e oito de Maio. Re­solvi­do havi­am os do con­sel­ho que Vas­co da Gama fos­se acom­pan­hado so­mente por doze home­ns, fi­can­do seu ir­mão Paulo da Gama, du­rante a sua ausên­cia, com o man­do supre­mo de to­da a ar­ma­da. Os batéis des­de o romper do dia flu­tu­avam jun­to das naus, tolda­dos e em­ban­deira­dos: nem es­que­ceu ar­til­há-​los; porque es­tivésse­mos pre­cata­dos con­tra qual­quer súbito come­ti­men­to: charame­las e trom­be­tas nos acom­pan­havam, e to­dos nós, ar­ma­dos e atavi­ados de sedas, de­sce­mos aos batéis. No meio de fes­tivos tan­geres, os re­meiros par­ti­ram de vo­ga ar­ran­ca­da, e ape­nas en­testá­mos com a ter­ra, em Pan­darane, o bale ou cat­ual, que en­tre os ín­dios de Cale­cut cor­re­sponde ao cor­rege­dor da Corte, nos veio re­ce­ber acom­pan­hado de duzen­tos naires, home­ns fi­dal­gos, de que se com­põe a milí­cia daque­le país. Parte de­les vin­ham ar­ma­dos, com es­padas nuas nas mãos; dan­do de si mostras guer­reiras. Uma es­pé­cie de an­das, a que chamam palan­quins, foram ali trazi­das por seis home­ns, que nelas con­duzi­ram Vas­co da Gama, des­de a pra­ia. Grande mul­ti­dão de po­vo aí es­ta­va re­uni­da, e no meio dela, rodea­dos de naires, que afas­tavam o po­vo, seguimos o cam­in­ho de Cale­cut. 

  «Al­to ia já o dia, mas o céu es­ta­va car­rega­do de nu­vens. Começa­va en­tão na Ín­dia a es­tação in­ver­nosa: a cidade fi­ca­va dis­tante, era pre­ciso abre­viar a jor­na­da: porque al­gu­ma grossa chu­va po­dia tornar im­pos­sív­el, ou di­fi­cul­toso o nos­so trân­si­to. 

  «O cam­in­ho para Cale­cut pas­sa